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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sufocando

Ele me olhava.
O tempo inteiro.
Durante as aulas, no intervalo, quando estávamos praticando pênaltis na aula de Educação Física e – o que mais me arrepiava – na hora da saída também.
Ele não era um cara feio como são os maníacos que a gente vê nos filmes. Muito pelo contrário, ele era bem bonito. As garotas eram apaixonadíssimas por ele. Elas dariam tudo para ter uma noite com ele.
Eu não.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Miyabi Doll

  
     Havia a muito tempo atrás, uma rica família, que vivia numa casa muito grande. O homem era um comerciante, casado com a filha de um fazendeiro. Eles tinham dois filhos: O mais velho se chamava Kameo e a mais nova, a princesinha da casa se chamava Okiri. 
     Os irmãos eram muito ligados; Kameo passava horas brincando com a irmã, sempre que podia. Quando atingiu certa idade, seu pai começou a leva-lo para o trabalho com ele, para que o garoto aprendesse os negócios da família o quanto antes, deixando a pequena sozinha a maior parte do dia. As vezes, Kameo e o pai chegavam em casa muito tarde, e a menina já tinha ido dormir. 
      Numa manhã, Okiri acordou e viu uma carta ao seu lado; era dos eu irmãozão. Ele tinha deixado para ela na noite passada. Na carta ele dizia o que estava fazendo no trabalho e como sentia a falta dela. Okiri ficou tão feliz que resolveu fazer o mesmo e deixou uma cartinha para ele, sobre a cama dele. A troca de cartinhas virou costume, e assim, mesmo não se vendo tanto, Okiri não se sentia tão sozinha.
      Infelizmente, em 1932, aos 8 anos, Okiri ficou muito fraca por causa de uma doença misteriosa que medico algum sabia dizer o que era. Kameo tentava passar o maior tempo possível com a irmã, sempre lhe dizendo que logo ela ficaria bem. Mas ele sabia da verdade, não havia cura para Okiri e a cada dia, ela ficava pior, mas nunca deixava de sorrir, sempre que o irmão chegava em casa.
      Alguns meses depois, a criança morreu. Seu corpo foi cremado junto com todas as cartinhas que tinha do seu irmão. A família ficou muito triste; a mãe chorava muito, o pai passou a beber e o irmão, ficava horas sozinho, lendo e relendo as cartinhas deixadas pela irmã, onde contava o que ela fazia em casa o dia todo quando ele não estava.
      O quarto da menina continuava intocado, suas roupas e seus brinquedos e suas bonecas. Numa noite, quando estava sem sono, o rapaz teve a ideia de organizar as bonecas na prateleira. As bonecas eram feitas de madeira e todas vestiam quimonos muito bonitos. Com paciência,  Kameo arrumou todas as bonecas de modo que ficasse alinhadas. Quando terminou ele estava para sair do quarto quando resolveu dar uma ultima olhada nos quimonos da sua irmã e foi ai que ele teve uma grande ideia: iria contratar o construtor de bonecas para lhe pedir uma boneca que tivesse exatamente o mesmo tamanho de Okiri, com cabelos do mesmo comprimento e olhos de vidro, seria perfeito! Vestiriam ela com as roupas da garota, e ela seria imortalizada como uma verdadeira boneca, a maior de todas.

        No dia seguinte, o rapaz fez o pedido da boneca e em menos de um mês, lá estava ela: vestida e penteada como Okiri, de joelhos em uma almofada, cercada por todas as outras bonecas. Todas as noites antes de ir dormir, Kameo abria a porta do quarto e dava boa noite à boneca. Numa noite em particular, quando abriu a porta, notou que a cabeça da boneca estava numa posição um pouco diferente do que de costume. Ficou furioso; alguns dos empregados deve ter tocado nela. Entrou no quarto e arrumou-a como deveria ser. Quando estava saindo, notou que a mão dela movia-se lentamente, fechando e abrindo os dedos. Deu um pulo com o susto; olhou bem para a boneca, que não mais movia os dedos. Bobagem, pensou, fechou a porta e foi para o quarto.
       Quando foi deitar-se, viu que havia uma pedacinho de papel branco dobrado em sua cama. Abriu-o e era uma cartinha escrita com a letra de Okiri: " Kameo, não!". Ele tinha certeza que nunca havia visto aquela carta antes, talvez estivesse perdida e algum dos empregado a achou e colocou sobre sua cama para que ele pudesse guardar com as outras. 
         No outro dia, logo que acordou, Kameo encontrou outro papel dobrado sobre sua coisas. A letra também era igual a de Okiri, mas desta vez, parecia que havia raiva na escrita, as letras estavam maiores: " Eu não sou ela!".
         Amassou o papel com raiva, alguém estava brincando com ele. Se vestiu e saiu para ir trabalhar, e ao passar pela porta do quarto da irmã, ouviu um barulho lá dentro, como se fosse algo caindo no chão. Abriu a porta e viu a boneca grande caída. Com paciência, ajeitou-a na almofada como sempre. Foi até a porta do quarto, e pelo espelho, viu a boneca levantar o rosto e olhar para ele com seus frios olhos de vidro. Deu um grito e olhou para trás: a boneca estava como ele havia deixado. Olhou mais uma vez para o espelho... estava tudo ok. Trancou a porta do quarto da menina e levou a chave consigo para o trabalho.
        Naquela noite quando voltou pra casa, sua mãe lhe disse que os empregados ouviram barulhos estranhos no quarto dele durante a tarde. Ao entrar em seu quarto, Kameo se deparou com uma mensagem escrita na parede " Eu odeio aquela boneca! eu não sou ela!"
         Agora a coisa estava séria: ou alguém tava muito afim de morrer ou... Deu uns tapas no próprio rosto, por pensar bobagem. Com pano e agua, removeu a mensagem. Decidiu não dizer nada a sua mãe. Antes de dormir, foi olhar as bonecas. Tudo estava em ordem.
          Mais e mais mensagens começaram a aparecer para ele; em forma de cartas ou nas paredes. As vezes, os empregados ouviam barulhos e gemidos vindos do quarto de Okiri, até que, as mensagens começaram a aparecer pela casa. Kameo não podia mais esconder ou ignorar, quando as paredes da sala estavam cobertas de tinta preta e uma mensagem " Odeio aquela boneca!". Junto à frase, marcas de mãozinhas de criança. Um a um, os empregados abandonaram os patrões.
         A noticia se espalhou de que a filha dos Sato havia voltado para assombra-los e todos pareciam acreditar nisso. Todos menos Kameo e seu pai. Eles estavam certos de que tinha sido uma brincadeira de mal gosto de alguns dos empregados. A senhora Sato, no entanto não gostava nada disso. Numa tarde, ela implorou para o filho queimar a boneca, pois ela não estava deixando sua irmã descansar. A senhora Sato estava ruim da saúde, e o rapaz não queria piorar sua situação, então, decidiu se livrar da boneca naquela noite.
        Quando entrou no quarto, Kameo deu um pulo para trás: todas as bonecas pequenas estavam amarradas pelo pescoço, penduradas no teto. O coração dele acelerou ainda mais quando notou a boneca maior, de pé, no canto do quarto, com o rosto virado para a parede... na verdade, duas delas. No outro canto do quarto, estava uma segunda boneca, na mesma posição, com a mesma roupa e cabelos, exatamente igual.
         "Kameo" disse uma voz. " Qual delas sou eu irmãozão? Você sabe dizer? qual sou eu e qual é a impostora feita de madeira? Sei que sabe, não sabe?" uma risadinha de criança preencheu o quarto, e logo em seguida, a voz tomou um tom mais sério. " Não erre!".
          O rapaz estava apavorado de verdade agora; aquelas bonecas enforcadas sobre ele e aquelas duas bonecas no canto do quarto... e a voz de Okiri... Olhou para as duas: eram idênticas de costas. Fechou os olhos, tentou se concentrar e caminhou ate uma delas. Quando estava perto o bastante para toca-la, ouviu mais uma vez a voz: "Eu sabia que não iria me decepcionar. Obrigada Kameo, eu te amo" e então, a boneca a sua frente sumiu no ar. Soltou o ar que estava preso em seu peito e se deixou chorar.
          Do lado de fora, acendeu uma fogueira para queimar a boneca. Finalmente tinha entendido os sentimentos de Okiri,e poderia deixa-la descansar em paz agora. O fogo consumiu rapidamente o corpo de madeira. Porém, enquanto queimava, aqueles olhos de vidro, tão iguais aos dela, continuavam a olha-lo...


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Na estrada da vida

Depois de tudo o que passei, o destino cruel ainda me coloca nas mãos o poder de ser o carrasco ou o anjo salvador deste que arruinou minha vida. Hoje, tenho trabalho, família, dignidade, mas Deus sabe a que preço. Perdoar ou condenar? Peço ajuda, ou o abandono aqui à própria sorte, que bem sei ser a morte certa?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Harvest Moon: a maldição


    Você já ouviu falar em Harvest Moon? costumava ser meu jogo favorito quando criança, na época do super nintendo. No jogo, você é um garoto da cidade que herda uma fazenda do seu avó, em uma cidadezinha chamada Mineral Town. O objetivo final do jogo é fazer com que a fazenda volte a ser produtiva como era antes, dentro de 3 anos ( em tempo de jogo). Nesse tempo, você pode plantar todo tipo de vegetais para vender, cuidar de animais, participar de brincadeiras e competições na cidade, fazer amigos, namorar e casar. Eu gostava dessa interação, dessa possibilidade de escolher como prosseguir no jogo, coisa que muitos jogos modernos hoje não oferecem. Claro, existem versões modernas e harvest moon, que continuam nos moldes antigos. Elas são ótimas, pelo que pude ver, mas ainda assim, eu sentia falta da versão que eu jogava no super nintendo. 
     Fiquei na vontade por tanto tempo que até esqueci, até um dia que um amigo meu me disse que um conhecido dele estava vendendo um super Nintendo por um preço muito baixo. Na mesma hora, a nostalgia caiu sobre mim e eu soube que era minha chance de voltar a jogar meus jogos favoritos, que infelizmente eu não tinha mais nenhum; meu console assim como meus jogos foram todos vendidos a muito tempo.
      Entrei em contato com o cara, marcamos de nos encontrar para fazer negocio. Cheguei a pensar que ele nem iria aparecer, ou que o console estaria em péssimo estado, mas para minha surpresa, estava muito bom; obviamente usado, mas inteiro. Por aquele preço, valeria a pena. 
      No caminho de casa, eu passei numas lojinhas no centro da cidade, onde é possível encontrar coisas eletrônicas antigas, entre elas, cartuchos de videogame. Encontrei alguns jogos interessantes, mas nada de Harvest moon. Fui para uma outra loja, depois outra e outra. Estava sem sorte. No entanto, em uma das lojas, a moça do caixa disse que poderia procurar esse jogo pra mim com o vendedor dela. Deixei meu telefone e fui pra casa, com esperanças.
      Para minha surpresa, no dia seguinte a moça da loja me ligou, dizendo que o rapaz que vende jogos pra ela achou uma copia desse jogo, ele levaria pra loja a tarde, o preço: 30 reais. Quase dei um grito de alegria no meio do escritório, mas me contive; esse jogo estava sendo vendido por 90 dólares no ebay, e 30 reais era um preço incrível.
       Eu esperava por um cartucho pirateado ou em péssimas condições, mas, de novo para minha surpresa, eu estava com sorte: o jogo era original, era quase novo. Comprei-o, agradeci a moça e fui pra casa.
         Liguei aquele cartucho no videogame. No começo, deu uma demorada, uma longa tela preta, mas ai, o logo da Natsume apareceu e me aliviou, o jogo funcionava.  Apertei o start para começar e vi que já havia um save no cartucho, de um jogador chamado Zalgo. Eu não queria pegar um jogo começado, queria fazer o meu, desde o começo, então ignorei Zalgo e criei o meu arquivo com meu nome. Joguei por umas horas, cultivei nos campos, cuidei dos animais; o tempo voou. Numa hora, quando o comprador de mercadorias chegou para coletar os produtos do dia, ele não falou sua fala de sempre, ao invés disso, ele ficou em frente a caixa de coleta, parado. Fui falar com ele, mas sua resposta foi uma longa linhas de pontos: "............."
      Não era como se ele estivesse me ignorando, era como se não estivesse podendo falar. Apertei o botão para voltar a falar e desta vez, ao invés dos pontos, vieram vários símbolos, como se fosse outra língua. Tentei ler aquilo, mas não era língua alguma que conhecia. No meio das letras e símbolos, reconheci uma palavra "ZALGO". Esse era o nome do outro save game que já estava no cartucho. Era um bug, pensei, acho que o save anterior tinha corrompido o meu. Reiniciei o jogo e deletei o arquivo Zalgo. Voltei ao meu save e o comprador estava normal como sempre, pegou os produtos do dia e se foi. Salvei o jogo e desliguei para ir descansar um pouco, não estava com nem um pouco de pressa em terminar esse jogo.
        No outro dia, eu estava de bom humor: trabalhei bem e foi um ótimo dia pra mim. Quando voltei pra casa, comi alguma coisa e fui jogar. Dei um pulo da poltrona, quando carreguei o jogo e vi que o arquivo Zalgo estava lá de novo. Fiquei curioso sobre o save e o selecionei para ver o que o antigo jogador estava fazendo. Logo que o jogo carregou, eu note que algo estava bem errado: toda a plantação estava morta, a casa estava em ruínas, os animais tinham sumido. Entrei na casa, que estava destruiria por dentro também, e vi Ann, a esposa do personagem, parada em frente a um berço vazio. Um dos objetivos do jogo era ter um filho, e nesse save o antigo jogador já deveria ter conseguido, ou não. Não havia nada no berço. Tentei falar com Ann, mas ela não respondia, apenas permanecia ali, imóvel, com uma expressão triste, que, apesar dos pixels do 16-bits, era claro que ela estava triste.
       Tentei falar com ela varias vezes, mas nada acontecia. Decidi sair da casa para olhar a cidade, mas quando estava saindo da casa, a caixa de dialogo de Ann abriu, como se estivesse falando do quarto: " é assim que acaba?" disse ela. Voltei para falar com ela, mas o mesmo se repetiu; permaneceu estática na frente do berço. Saí da casa e fui para a cidade. Não fiquei surpreso ao ver tudo como na fazenda: ruínas destruídas. Todas as casas estavam fechadas, o único lugar que pude acessar era a igreja. Entrei nela e vi todos os personagens da cidade, ali dentro, com o padre à frente. Uma musica aguda começou a tocar, parecia uma bug no jogo, porém, ele rodava normalmente. Uma caixa de diálogos apareceu, com aquelas letras e símbolos da outra vez, como se todos estivesse orando. Nesse momento, eu comecei a sentir medo mesmo, mas queria ver onde isso iria parar.
       Me aproximei do altar, e então o padre falou:
     - Zalgo está aqui! Já podemos começar.
       O personagem andou sozinho, foi ate o altar, onde um bebê estava deitado, então, o padre lhe deu uma faca. O fazendeiro a ergueu sobre a cabeça.
     - Vamos Zalgo. É o melhor para todos. - disse o padre.
       E ai, ele enfiou a faca no peito do bebê, espalhando seu sangue sobre o altar. Nesse momento, tentáculos negros saíram da ferida no peito do bebê. Uma caixa de texto apareceu com o nome ZALGO em caixa maior, como se todos estivessem gritando seu nome. Os tentáculos cresceram e se espalharam por toda a igreja e logo, pela cidade toda. 
        Eu nunca se quer tinha pensado que uma coisa daquelas pudesse ser real, era pra ser só um jogo, mas aquilo ja tinha passado dos limites! Se nao bastasse, todos os personagens da igreja começaram a rir; em suas caixas de texto, apareciam as palavras "hahahaha" e um por um, eles explodiram em pocinhas de sangue pixelado, e de seus cadáveres, mais tentáculos negros se ergueram...
       Soltei o corpo no sofá, e estava muito tenso, mas parece que finalmente havia acabado, a tela ficou escura e a musica parou. Quando pensei em desligar o videogame, Ann, a mulher do fazendeiro apareceu no meio da tela. Seu rosto ainda estava triste e me olhava como se de fato pudesse me ver. " Você foi com isso até o final" disse ela, em texto. Então, a barriga dela foi crescendo lentamente, como se meses de gravides estivesse passando em segundos. Cresceu até que chegou ao tamanho máximo de gravidez no jogo, então Ann voltou a falar: e agora," o que vai fazer?" 
        Tomei um susto com o telefone tocando bem naquela hora. Fui atender e era minha namorada, ela estava nervosa, quase chorando. Ela estava grávida, tinha acabado de confirmar no médico...
         Enquanto a ouvia chorando no telefone, olhei para a Tv, e a mensagem de Ann ainda estava lá " e agora, o que vai fazer?". Ann já havia sumido, mas a mensagem ainda estava ali. Senti o corpo todo tremer. Arranquei o cartucho do videogame e o ataquei na parede, para que aquilo nunca mais pudesse ser jogado por ninguém!
        No dia seguinte corri até a loja, eu queria saber quem era o maníaco que revendeu aquele jogo, eu queria saber qual o problema dele, mas... a loja estava fechada. Tentei olhar pela janela, e vi que estava vazia por dentro... cai em desespero, não fui trabalhar aquele dia.
         Minha namorada está mesmo grávida, ela está muito triste e perdida, assim como eu. E agora, o que eu vou fazer?
     





















sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Frequência Infernal


Eu estava entediado aquele dia.
Munido de um pacote de Doritos e muita Coca-Cola, apaguei as luzes do meu quarto e naveguei na internet. Estava sozinho em casa, meus pais saíram para algum jantar idiota com gente chata. Não quis ir, obviamente. Era humilhação demais sair para jantar com os pais e um monte de gente velha numa noite de sábado.
Para não ficar ainda mais deprimido e sozinho, liguei o rádio numa estação qualquer da internet. Estava tocando umas músicas velhas, estilo anos 80, mas deixei mesmo assim. A música me fez lembrar GTA Vice-City. Até cogitei jogar, mas estava a fim de mexer no computador. Então permaneci na internet.
Lá pelas tantas, não havia mais nada o que olhar. Apesar das possibilidades infinitas, em algum momento a internet acaba. O que eu poderia ver em seguida? Não queria ver pornografia, meus pais poderiam chegar a qualquer momento, eles não falaram nada sobre horário.
Abri o Google e permaneci com os dedos alguns centímetros acima do teclado, de olhos fechados, experimentando o ar, aguardando uma inspiração.
Então digitei a palavra “medo”.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Homem dos Sonhos (V) - No Limite dos Pesadelos


Capítulos anteriores:

Parte 1/Parte 2/Parte 3 Parte 4

Quando alguém olha debaixo da sua cama, pode encontrar algumas surpresas. Um sapato sem par que não é usado faz séculos, uma caixa de fotos antigas com imagens de pessoas esquecidas, restos de comida criando mofo, ou até um rato morto. Aline preferia ter encontrado um rato morto. Em vez disso, ela encontrou um buraco aparentemente sem fundo.

O grande problema é que ela só descobriu isso quando já estava caindo. E a constatação de não haver fundo vinha do tempo em que ela estava caindo dentro da escuridão, sem nenhum indício de sua queda encontrar seu fim.

E ainda havia o som terrível como um grito de desespero que se ecoava por todos os lados.

O grito era dela mesma, a propósito.

Mas como tudo que tem um começo também tem um fim, seu mergulho nas trevas terminou abruptamente com o som de algo se rachando e ela imaginou serem seus ossos.

Ficou surpresa ao descobrir que não tinha nada quebrado em seu corpo, apenas um pouco dolorida no ponto em que seu corpo atingiu o chão. Por sorte foi um ponto macio. Olhou ao redor e precisou piscar algumas vezes para se adaptar a luz de penumbra do ambiente. Estava em um lugar ambiente escuro e úmido, como o interior de uma caverna.

Aterrissara em uma pilha de grandes pedras escuras, que possuíam uma textura frágil, como a casca de um ovo. Havia uma rachadura sob ela de onde vertia um líquido amarelado nojento, mas não teve muito tempo para entender onde estava, pois o monte começou a desmoronar debaixo dela.

O que pareciam ser um amontoado de pedras revelou-se uma série de carapaças com pernas finas, antenas, olhos e bocas movendo-se. E não pareciam nem um pouco felizes por Aline ter esmagado uma delas com sua queda.

As carapaças, cada uma delas quase o dobro do tamanho de uma pessoa, a rodearam, certamente imaginando que ela seria uma presa fácil. E não estavam enganadas. A visão destes seres despertou um medo primitivo que deixou Aline totalmente paralisada de pânico.

A cada instante o círculo ao seu redor se fechava mais e mais, conforme aqueles seres asquerosos se aproximavam. Suas antenas se movendo de um lado para o outro com cada passo que davam em sua direção.

Ficaram tão próximos que ela podia ver um líquido gosmento escorrer de suas bocas e seu reflexo em seus olhos multifacetados. Mas quando estas mesmas bocas chegaram ao ponto de quase tocá-la, algo dentro dela despertou. Como um animal que, diante de um inimigo superior e ao mesmo tempo tem qualquer possibilidade de fuga negada, ela fez a única alternativa ao seu alcance, e golpeou a criatura mais próxima com qualquer coisa que tivesse a mão.

A cabeça insectóide dobrou-se para o lado com um estalo alto pela com a força do golpe desferido. As demais criaturas ficaram paradas, algumas deram um passo atrás. Aparentemente não esperavam nenhuma resistência.

Diante da hesitação de seus algozes e com o coração batendo acelerado, Aline agarrou o objeto com as duas mãos e partiu para o ataque, golpeando cegamente.

Dois monstros caíram do seu lado antes que os outros começassem a reagir. Alguns se afastaram, possivelmente temendo serem as próximas vítimas de sua fúria assassina. Outros tentaram atacá-la por trás. Girando o corpo, golpeando um deles, o que fez os outros hesitarem por um instante, enquanto suas antenas moviam-se freneticamente.

Aline olhava todos ao seu redor sentindo a tensão em seu corpo, como uma mola pressionada ao seu máximo. Suas mãos erguidas ao lado de sua cabeça unidas ao redor do objeto que lhe servia de arma. Sua respiração arfando, aos poucos foi reduzindo de intensidade, se acalmando. Mas se acalmar era o que ela menos queria nesse momento, porque com a calma viria novamente o medo, e medo era um luxo que ela não podia mais se permitir naquele momento.

- Vocês querem mais? Então venham pegar! - bradou em desafio.

Aparentemente, este era todo o incentivo que as criaturas precisavam, pois como um só eles voaram para cima dela. Ela brandiu sua arma para um lado e para o outro, a cada golpe derrubando um deles.

Mas eles eram muitos, incontáveis.

Era uma batalha condenada desde o início.

Eles a agarraram e puxaram para todos os lados, o objeto que ela usara como arma foi arrancado de suas mãos, e eles continuaram puxando, esticando seus braços e pernas abertos. O movimento das antenas agora parecia uma gargalhada silenciosa, zombando de sua presa. Sentia a dor em suas juntas se espalhando por seu corpo e gritou, certa de seu fim.

Repentinamente, a pressão em seu braço esquerdo afrouxou, e sentiu o movimento ao seu redor, enquanto passaram a puxá-la para uma única direção pelos outros membros de uma forma desajeitada.

Aline foi derrubada quando um vulto negro voou por cima de si sobre seus algozes. Observou perplexa enquanto o vulto pulava de criatura em criatura que saiam em debandada, dispersando-se e enfiando-se em quaisquer buracos escuros que encontrassem para se refugiar. Levantou-se rapidamente e olhou em volta em meio a confusão, procurando lugares para se esconder.

O vulto já se encontrava a uma certa distância quando retornou lentamente. Aline procurou algum objeto com o qual pudesse se defender, mas não havia nada além dos corpos caídos dos grandes insetos que a atacaram, e cujos sobreviventes já não estavam mais a vista. Afinal, não sabia se fora salva, ou se era um aperitivo disputado para o jantar.

Conforme o vulto se aproximava, foi se tornando possível distinguir-lhe as formas, como se ficassem pouco a pouco mais nítidas. Era algo como uma grande pantera, maior do que qualquer uma que Aline já vira, não que ela já tivesse visto alguma pantera em sua vida, mas a criatura de pelos negros que agora se aproximava em passos lânguidos e trazendo algo em sua boca chegava quase a altura de seu peito.

Contraditoriamente, ao olhar para os olhos que pareciam dois brilhantes cristais de âmbar, Aline sentiu uma onda de alívio atravessar seu corpo e relaxou sua guarda. Reconhecera algo neles, algo que sua mente racional insistia em dizer ser impossível, mas sua mente racional não parecia ser a melhor conselheira neste momento.

- Tom!? É você?

A pantera negra estreitou seus olhos, dando a impressão de estar prestes a dar o bote. Soltou o objeto em sua boca e levantou a cabeça de forma imponente.

- Sir Thomas III, cavalheiro da irmandade dos gatos negros. - disse com um forte sotaque, parecendo um ator de um filme antigo. - Sim, sou eu!

- Você não parece com nenhum cavaleiro que eu já tenha visto. - Aline comentou de forma abrupta.

- Eu disse cavalheiro! Ou você consegue me imaginar em cima de algum cavalo?

Ela conseguia. E teve de prender o riso com a imagem que conseguia ser menos surreal do que o fato de que estava conversando com uma versão gigante do gato de sua irmã.

- O que eram aquelas coisas?

- Vermes que infestam todos os mundos, rastejando na escuridão, sobrevivendo da podridão dos outros. Em seu mundo vocês os chamam de baratas. - ele respondeu se abaixando para apontar para o objeto que trouxera em sua boca. - Estavam atrás disso. Você deveria tomar mais cuidado com algo tão valioso.

Aline pegou o objeto do chão onde Thomas o deixara e notou surpresa ser o mesmo que usara como arma, minutos atrás.

- Mas isso é apenas um urso de pelúcia!

- Claro, assim como isso no seu pescoço são apenas duas hastes de metal dourado perpendiculares entre si.

Ela ignorou o sarcasmo na voz do felino e tocou a cruz dourada por um instante como para ter certeza de que ainda estava lá.

- Que lugar é este? O que estamos fazendo aqui?

- Estamos no limiar do reino dos pesadelos, e eu trouxe você aqui para me ajudar a salvar sua filha. Mais alguma pergunta tola ou podemos seguir em frente? - ele respondeu mostrando os dentes e dando-lhe as costas sem esperar por resposta.

Ela ainda tinha muitas perguntas, mas como não sabia qual delas se enquadrava ou não na categoria “tola” preferiu se calar por ora. Pegou o urso ainda caído e seguiu Sir Thomas aonde quer que ele a estivesse guiando. Ele mencionou que estavam ali para salvar sua filha e isso era mais importante do que qualquer outra coisa.

* * *

Nos sonhos, às vezes vamos de um lugar para o outro sem nos darmos conta de como isso aconteceu. Ao tentarmos relatar estes deslocamentos no dia seguinte, nos confundimos, chegando ao ponto de dizer “era ali, mas também era lá”.

Desta forma, o cenário ao redor de Aline e Thomas mudou de uma caverna úmida e rochosa para uma densa floresta de plantas semelhantes a trepadeiras petrificadas retorcidas e emaranhadas como uma gigantesca teia de aranha, das quais brotavam frutos murchos enegrecidos, cada um do tamanho de bolas de basquete que exalavam um odor pútrido.

Thomas ia na frente agachado, com passos curtos e lentos, como um gato à espreita de um pombo desavisado. Aline o seguia sem um pio, já participara de tocaias o bastante para saber a importância da discrição a fim de não avisar o alvo de sua presença.

Sentia falta de sua pistola. A segurança do aço frio em suas mãos ajudaria a aquietar seus espírito, além de dar algum senso de realidade a toda aquela loucura.

Virou-se de repente, esquadrinhando a mata ao seu redor. Não vira nada, mas sentira alguma coisa, como um movimento no canto do olho. Voltou-se novamente para o outro lado. A mesma sensação, mas ao olhar, não havia nada lá.

Pensou em avisar Thomas, mas viu que ele já se distanciara, aparentemente não se importando em deixá-la para trás. Rangendo os dentes de raiva ela apertou o passo para alcançá-lo. Sentia que algo a observava e olhava para os lados sem enxergar nada por entre as folhagens. Sem perceber, apertou mais o urso em suas mãos, como quem segura uma arma em uma situação de risco, ou como uma criança com medo do escuro.

Na pressa ela pisou em um dos estranhos frutos enegrecidos que estava espatifado no chão em seu caminho. Seu rosto se contorceu de nojo quando sentiu um cheiro de ovo podre, vinagre alguma coisa excessivamente doce se espalhar. Ergueu o pé de onde escorria um líquido viscoso e conteve uma ânsia de vômito.

Novamente teve a sensação de ser observada, mas diferente de antes ela ficou etática, fingindo prestar atenção nos pequenos fragmentos brancos como ossos que não pareciam nem um pouco com sementes dentro do fruto em que pisara. Enquanto isso, tentava enxergar o que quer que despertava os seus instintos com o canto dos olhos.

E foi assim que ela viu o vulto.

Não podia distingui-lo muito bem, parecia ser uma pessoa, mas tinha certeza de que estava ali. Viu que Thomas se distanciara de novo, e contra toda a prudência chamou por ele.

O grande gato negro levantou suas orelhas e voltou-se em sua direção, ao que ela lhe fez um sinal para que retornasse, o que ele fez após apenas um momento de hesitação.

- O que foi? - ele perguntou com um leve rugido quando já estava próximo dela.

Ela fez um sinal discreto para o lado em que vira o vulto, mas Thomas continuava olhando para ela de forma inquisidora. Aline tentou mais uma vez, fazendo um gesto com a cabeça, nem tão sutil, na esperança que ele caísse em si. Quando isso não deu certo ela soltou um suspiro, vencida.

- Tem alguma coisa ali. - e apontou, claramente dessa vez.

Thomas respirou fundo e olhou rapidamente para a direção para onde ela apontava antes de responder.

- Não há nada ali. Nada importante, pelo menos. Apenas alguns sonhos perdidos. É com os corvos que precisamos nos preocupar. Esta área é infestada deles, e já deveríamos ter encontrado alguns a esta altura.

- E o que faremos agora, então?

- Nós não faremos nada. Você fica aqui e aguarda. Eu vou na frente para tentar descobrir o que está acontecendo.

- Ficar aqui? Por que não posso ir com você?

- Porque iria me atrasar, como já está fazendo. - ele respondeu dando-lhe as costas. - Permaneça na trilha e ela te protegerá.

Aline abriu a boca para dizer o que pensava para aquele gato vira-lata, mas com um salto ele já havia desaparecido, como se feito de sombras. Deixando-a sozinha resmungando sobre como iria transformá-lo em tamborim assim que voltassem para casa.

Então olhou para a vegetação ao seu redor e deu-se conta de estar completamente só em um lugar estranho e desconhecido e se perguntou se conseguiria voltar para casa.

A sensação de estar sendo observada se intensificou e ela inconscientemente apertou o urso de pelúcia em seus braços. Sentia-se desolada como uma criança perdida em um lugar escuro. Parecia sentir um vulto se movendo ao seu redor sempre que não estava olhando.

Quanto tempo já havia se passado desde que Thomas havia partido? Ela não sabia dizer. E se ele não voltasse? E se sua filha já estivesse morta? Conforme as perguntas se acumulavam em sua mente, sua respiração acelerava.

Dizia para si mesma que estava imaginando coisas. Thomas dissera que não havia nada lá.

Nada de importante, ele dissera.

Em meio a estes pensamentos inquietantes, ela ouviu algo. Primeiro achou que fosse o vento, mas percebeu que as folhas não se moviam. Prestou atenção e notou se tratar de uma voz. Tentou identificar o que dizia e ficou surpresa ao notar que chamava por um nome.

Seu nome!

Aline levantou-se em alerta e apurou os ouvidos para ter certeza de ter escutado certo.

Sim, a voz sussurrava seu nome. Aline. Aline. E não era uma voz qualquer. Ela a reconhecia.

Com pouco esforço conseguiu determinar de onde vinha. Cada vez mais a voz ia se tornando mais nítida, mesmo que parecesse distante.

Quando ia entrar na mata, ela hesitou. Olhou para a direção por onde Thomas partira e lembrou-se de sua recomendação para permanecer onde estava. Mas a voz insistia e ela tomou sua decisão.



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Mecânico




– Bom dia… Só um minuto que eu já abro.
Eliz correu para abrir o portão da garagem para o mecânico. Ele era alto, corpulento, barba por fazer, e logo de cara fez a jovem se assustar com o olhar Ed poucos amigos. Os braços musculosos saltando pra fora da camiseta, lotados de tatuagens estranhas, como aquelas de ex presidiários, chamavam a atenção rapidamente.
– É aquele ali? – perguntou apontando uma caminhonete
– É... É esse mesmo... – disse meio trêmula.
Tentou entregar-lhe a chave do carro, mas ele pediu apenas que abrisse a porta. A ideia de ter que ficar fechada na garagem, sozinha, com aquele homem era um tanto estranha.  Apertou o botão do controle e ficou encostada na grade da rampa enquanto ele caminhava a passos pesados até o carro. O modo esforçado como abriu o capô e os gemidos que lançava vez ou outra, devido à força de desatarraxar a peça, foram bastante exagerados. Eliz só queria que ele fosse embora para que ela pudesse voltar a seus afazeres.
– Ei moça, poderia me ajudar aqui? Segura a lanterna, por favor...
O pedido a fez tremer de cima a baixo. Era só apoiar a lanterna no carro, pra que tinha que ela segurar? Alguma coisa tinha ali... Mesmo desconfiada foi, pois precisava do carro arrumado e daquele homem fora de suas vistas. Quanto antes, melhor... Se ela ajudasse pelo menos ele não teria desculpas para não terminar logo o serviço.
– Assim? – perguntou meio impaciente.
– É... Exatamente assim. Você está exatamente onde eu queria... – o tom lascivo da voz dele a assustou ainda mais. Não sabia dizer se ele falava com a peça que tentava soltar, com a luz ou com ela mesma. Na duvida era melhor não arriscar. Deu um passo atrás, mantendo o braço esticado, para que a lanterna ficasse no lugar. Mantinha a cara amarrada todo o tempo.
– Sabe, é uma belezinha... Tem jeito de ser bem potente. – voltou seus olhos negros como a noite para Eliz, que já não sabia o que pensar. Tentava se lembrar quem lhe indicara aquele mecânico, mas em sua mente só existiam aqueles olhos a devorando.  Quando deu por si as ferramentas estavam já no chão e ele ia em sua direção. – não vai demorar muito mais...
A jovem não sabia o que fazer. As pernas pareciam gelatina, não a obedeciam e ele continuava se aproximando. Como num estalo seu cérebro religou e conseguiu correr, mas ele corria atrás dela. Pensou em gritar, mas não havia ninguém para ouvi-la, não tinha maneira de chegar até a porta, o controle da garagem parara de funcionar – outra vez... Tinha que reclamar com o sindico se conseguisse escapar dessa – e não havia nenhuma possível saída para ela. O homem continuava a cercando, entre risos e gemidos, uma respiração ofegante pela corrida e a língua passando pelos lábios rachados, levando a eles uma baba gosmenta. Estava encurralada. O sorriso dele era de triunfo enquanto chegava mais e mais próximo. Eliz já começava a implorar e rezar quando percebeu que o extintor de incêndio ainda estava na parede. Ao menos alguma coisa nesse prédio estava dentro dos regulamentos. Sem medo, dó ou piedade rasgou o rosto do homem, que se encontrava a poucos passos de seu corpo, com a chave do carro, fazendo-o cambalear para trás, com dor. Apesar da pequena dificuldade, com algum esforço conseguiu pular a grade atrás de si – rasgando a barra do vestido que usava – e chegar até o objeto vermelho, que significava sua salvação.
– Hey, mocinha, acho que agora acabamos aqui!
O homem estava furioso, o extintor parecia pregado na parede e Eliz simplesmente não conseguia soltá-lo. Estava em desespero, chorando e puxando, quando sentiu aquela mão enorme em seu ombro. Fechou os olhos e dessa vez não se conteve, gritou o mais que sua voz permitiu.
– Dona... Qual o problema? – as pálpebras de Eliz se abriram e suas pupilas dilatadas pelo medo encontraram a imensidão daquelas bolas de gude oculares. Ele parecia bem assustado. Estava parado à sua frente, e ela ainda segurava a lanterna, que em poucos segundos foi ao chão. O que tinha acabado de acontecer? Estava com a respiração ofegante e tratou de se afastar dele, como se fosse um monstro – Olha, se precisar eu chamo um médico pra senhora... Ta tudo bem?
– Ta... Ta sim... – disse sem muita certeza – O que você quer comigo?
– Eu ia avisar que já ta pronto o carro... – ele parecia não entender – E que agora eu tenho que ir embora. Mas daí eu vi a senhora toda pálida e parecendo que tinha visto um fantasma, me assustei. Ta tudo bem mesmo? Quer que eu telefone pra alguém? A senhora vai ficar bem sozinha? Se quiser eu chamo uma ambulância... Eu tenho um primo que é médico, e ele sempre diz que em casos assim tem que chamar uma ambulância... A senhora sabe quanto é 2+2? É que ele diz que é importante manter a pessoa lúcida e fazer perguntas pra saber se o cérebro tá ok...
– Não... Eu to ok... Sério... – passou a mão trêmula pelo rosto.
Estava desconcertada. Aquilo tinha sido tudo fruto da sua imaginação? Acompanhou-o para a porta, e enquanto entregava-lhe o valor do conserto reparou que a tatuagem de seu braço esquerdo, uma das que mais a assustara de inicio por parecer algum tipo de monstro – talvez algum motivo satanista –, era na verdade um desenho de criança, bastante torto e descoordenado, com os dizeres “à minha eterna princesa, que tanto amo, Emily... Saudades eternas” .  

-x-
***Nota da autora: Vivemos em um mundo tão caótico que não raras vezes nos deixamos levar pelas aparências, imaginando situações onde não existem. Deixamos que o mundo nos diga que pessoas X são más, pessoas Y são boas e não paramos pra pensar que isso é bobagem! Às vezes o terror está apenas em nossa mente, servindo de esconderijo para algo muito mais assustador: o preconceito.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sem saída


    A  sala era pequena, com paredes brancas. Uma mesa de madeira no meio e duas cadeiras. Uma terceira parede, era na verdade um grande vidro espelhado. Ele sabia que havia uma câmera ligada do outro lado do vidro, filmando e gravando tudo naquela sala.
     Estava com os braços abaixados. Olhar triste, acabado. Nada mais importava pra ele; responderia todas as perguntas que lhe fizessem.
     O detetive Carter entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Olhou para o vidro e fez um sinal coma  mão, depois voltou-se para ele, puxou a cadeira e sentou-se.
    - Ok senhor Levin, pode me dizer o que aconteceu ontem a noite na sua fazenda?
    Ele olhou com olhos muito tristes para o detetive e soltou um longo suspiro.
    - O mesmo que eu ja disse antes, detetive. Mas ninguém acredita. Não tem mais nada que eu possa fazer.
    - Apenas responda as perguntas no melhor que puder, tudo bem? O que fazia ontem, a essa hora da noite?
      Mai um longo suspiro. Olhou para o detetive respondeu:
     - Estava na minha casa, na fazenda. Ouvia o jogo no rádio, em minha sala.
     -  Pistons contra Atlanta?
     - Sim.
     - E sua família, o que faziam?
     - A Cassidy tava pondo a mesa do jantar. Ela tinha em chamado pra ir comer, mas eu queria ouvir o fim do jogo.
     - E sua filha?
     - A Sara... - pausa.
     -  Sim senhor Levin, a Sara. O que a Sara estava fazendo?
     - No quarto dela, eu acho... conversando com alguma amiga pelo telefone.
     - A ultima ligação do celular dela era para uma garota chamada Ellen Tallarasse.É alguma amiga que o senhor conheça?
     - Ellen, sim, eu a conheço. Eram amigas.
     - Ela foi interrogada hoje mais cedo. Disse que estavam ao telefone quando ouviu Sara gritar e em seguida a ligação caiu.
     O homem baixa a cabeça e não diz mais nada.
     Depois de um breve silencio, o detetive continuou.
     - Por que a Sara gritou, senhor Levin?
     - Porque o homem comprido estava na janela dela...
     - O Homem comprido.... - repetiu o detetive, num tom de desdém. - Já ouvi a lenda: um homem bem alto, com braços e pernas bem longas não é?
     - Sim. Ele mesmo. Desde que eu era criança eu o via rodando a fazenda, mas todos me diziam que era só coisa da minha cabeça.
     - Não! - respondeu num tom de raiva. - ele é real.
     - Então foi o homem comprido que matou Cassidy e Sara?
     - Não foi....
     - Então quem matou elas?
     - Eu... - disse com voz tremula, cheia de dor e pesar.
     - Então o senhor admite ter atirado nas duas?
     - Sim.
     - E por que as matou?
     - Porque elas pediram...- respondeu baixo.
     - Por que?
     - Porque elas me pediram! - levantou a voz.
     - Como assim, elas pediram para o senhor pegar seu rifle e as matar?
     - Sim. Eu estava na sala quando ouvi o grito de Sara. Foi só um grito. Minha mulher foi ver o que era, e ai, eu ouvi o grito dela também. Peguei meu rifle de caça e sai correndo e gritando o nome delas e entao...
     - Então o que...?
     - Eu vi ele. Ele era enorme, parecia estar em toda parte. A luz do quarto oscilava com a presença dele. Desde criança, quando a luz falhava, eu sabia que era ele por perto.
     - Pode descrever ele?

   - A janela tava aberta, ele tava com o corpo pra dentro, esticado, magro e comprido. Ele tinha braços muito longos, mas tinha uns tentáculos ou algo assim, que saiam das costas dele... eles se agitavam e preenchiam todo o quarto.
     - E sua familia?
     - Cassidy e Sara estavam nos braços dele. Elas me olhavam com um olhar vazio e perdido. Ouvi a Sara me chamando, mas parecia que ela tava sonhando e não acordada. A Cassidy pedia socorro, mas também não se mexia, tava no braço dele.
    - E depois?
    - Ele virou o rosto pra mim. Não tinha nada na cara dele. era como um saco de pano branco. Não tinha nariz, nem boca nem olhos. Nada. E ai ele puxou o corpo pra fora e levou elas. Eu corri pra fora também, pulei a janela. Ele tinha uns 3 metros ao todo e as carregava para a floresta.
   - Foi aí que você atirou nelas?
   - Sim... Eu tentei acertar ele, mas não consegui. As balas pareciam passar direto. Como se ele nem fosse real. mas então, a Cassidy pediu, chorando, para eu a matar. Eu nunca a vi tão desesperada. Ela gritava, dizendo que não queria ser levada. Ela me implorava para mata-la, para permitir que ele a levasse para a floresta escura. Eu fecho os olhos e escuto o grito dela.
   - E então, voce atirou nas duas.
   - Eu não quis! Mas era isso ou deixar ele as levar. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, entende? Ele iria sumir com elas pra sempre! eu queria pelo menos ter um cadáver pra poder enterrar!
     O detetive ficou pensativo por uns segundos. Definitivamente não acreditava em nada daquilo, mas não podia negar que aquele homem estava muito alterado. Ele viu algo assustador noite passada, isso era certeza.
    A luz oscilou.
    O senhor Levin deu um pulo da cadeira.
    - É ele! ele veio me buscar!
    - Senhor Levin fique calmo! não existe homem comprido! isso foi só um problema com a energia, acontece sempre!
     Em seguida, a luz apagou completamente: o senhor Levin começou a gritar e chamar o nome de Deus. O detetive gritou para ele se acalmar, mas então sentiu uma força empurrando-o...
    Gritos dos dois e barulhos de tiros. O grito do senhor Levin foi silenciado de repente, como se tivesse sido subitamente interrompido. A luz voltou. Os outros policiais na outra sala, apertaram os olhos contra o vidro para ter certeza do que estavam vendo: A mesa da sala estava quebrada, as cadeiras caídas. O detetive Cartes caído num canto, mole como uma marionete sem cordas... e nem sinal do Senhor Levin.
    Quando investigaram a sala, os policiais não viram nada que pudesse justificar o desaparecimento dele. Nenhuma marca na parece e a janela estava intacta... e o que quer te tenha matado o detetive, tinha muita força, foi muitos dos ossos dele estavam quebrados.
    O caso foi encerrado. O fazendeiro levou a culpa pelo assassinato da sua família e também do detetive. Foi dado como foragido e perigoso, mas nunca mais foi encontrado.