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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A loja de máscaras

    
       O halloween estava chegando e tudo que Gustavo queria era uma fantasia que não o fizesse parecer um idiota perante os amigos. Infelizmente sua mãe era boa em fazer ele passar vergonha e todo ano ela lhe arrumava fantasias péssimas, que acabavam por torna-lo motivo de piadas ( como se já não fizessem piadas o bastante sobre ele.)
      No ano passado ela o fez ir vestido de Peter Pan. Foi terrível, todos vestidos como monstros e ele todo verdinho e fofo, em meio à zumbis, vampiros e bruxas. Quando a questionou sobre o porque ele tinha que se vestir assim e não como monstro, sua mãe o explicou que o sentido do halloween não é simplesmente dar sustos e sim, pregar peças nos outros; as fantasias são meios de ocultar a própria aparência a fim de enganar as demais pessoas.
     Mas isso não convencia; ele ainda não via motivos para não se vestir de monstro. Que se dane o sentido do halloween! era dele que todos riam nas festas da escola, e esse ano, Gustavo estava determinado a mudar isso. Não só conseguiria uma fantasia de monstro, como daria um bom susto em todos!
      No centro da cidade, havia uma loja da fantasias muito boa. Sempre que passava de carro lá cm os pais, ele olhava a vitrine, imaginando que outras fantasias incríveis deve haver lá dentro. Com esse pensamento na cabeça, o garoto economizou uma parte da sua mesada, o ano todo, para comprar ele mesmo uma fantasia: mesmo que não dê pra comprar algo muito bom, pelo menos seria algo que ele mesmo teria escolhido.
      Com a data da festa se aproximando, as piadas e chacotas começavam; alguns meninos até faziam apostas do que será que ele apareceria usando desta vez. 
      Na tarde do dia 31 de outubro, sua mãe o pegou na escola e o levou até a loja de fantasia que ele tanto queria; ela tinha ficado impressionada com a quantidade de dinheiro que ele juntou sozinho, e decidiu que aquela força de vontade toda deveria ser recompensada: " Mas se não gostar de nada, eu vou escolher alguma coisa, ok?" foi o trato que fizeram.
      Infelizmente, comprar fantasias no dia das bruxas era algo complicado: as fantasias boas já tinham todas sumido, sobrando só coisas bobas como tomate, príncipe e fada. Muito desiludido, Gustavo saiu da loja: " compre o que quiser" disse pra sua mãe. O atendente, vendo a clara decepção do menino, lhe chamou a atenção para uma pequena loja no fim da rua:
       " É uma loja de mascaras. Tem umas bem assustadoras lá, uma boa parte delas é feita ali mesmo, porque não dá uma olhada?"
        A ideia parecia boa, seria melhor do que ter de ir como príncipe. Enquanto a mãe estava distraída com as opções humilhantes na loja, deu uma escapulida para rua, tentando achar a tal loja.... e de fato, lá estava ela. Como nunca tinha reparado nela antes? Era uma casa pequena e bem suja, se não fosse pela placa "Loja de máscaras" não saberia que se trataria de uma loja. Juntou coragem e entrou na loja.
        O interior era escuro, e tinha um cheiro estranho, cheiro de algo que não tinha a menor ideia do que poderia ser. As mascaras estavam por toda parte, exceto no chão! paredes e teto, cobertos por todo tipo. Algumas muito exóticas, outras mais simples. e claro, haviam muitas mascaras de monstros. Gustavo estava tão perdido entre aqueles rostos falsos olhando pra ele, quem quase não percebeu o velho senhor mal encarado atrás do balcão.
        -  Posso ajuda-lo?

        Gustavo deu um pulo com o susto. Explicou ao senhor sua situação e disse que queria uma mascara tão horrenda que até mesmo uma fantasia de príncipe poderia assustadora com ela. O velho lhe indicou uma parte da parede, coberta com mascaras e monstros e demônios, todos bem variados e horríveis. Algumas delas tinha cabelo que parecia real, e outras tinham a boca aberta e quase dava pra sentir mal hálito vindo delas!
         - O senhor teria uma dessas, do me tamanho? - apontou para um rosto demoníaco, de cabelos brancos, pele vermelha e chifres.
             O velho resmungou algo sobre consultar o estoque e entrou por uma porta. Uma outra porta, chamou a atenção do garoto; uma porta atrás do balcão, com uma placa: "proibida a entrada. A porta estava entreaberta. Como se uma voz na cabeça estivesse controlando-o a abrir aquela porta; Gustavo adentrou a sala proibida. Parecia ser a oficina do velho vendedor. Sobre uma mesa de madeira, havia uma mascara, que só de olhar o vez gelar dos pés à cabeça: era verde, com olhos amarelos, orelhas pontudas e com dentes pontudos saltando para fora da boca. Ao toca-la, sentiu que era como se fosse feita de couro e ao borracha. Não só isso, a mascara era quente como se tivesse calor próprio e os olhos eram uma membrana gelatinosa, muito parecido com olho de verdade. A mascara era perfeita, ele sabia disso, tinha que ser aquela! Pegou uma sacola sobre a mesa, colocou a face demoníaca dentro e saiu da loja correndo, deixando todo seu dinheiro sobre o balcão.
          Quando se reencontrou com a mãe, contou a ela que tinha comprado a mais assustadora mascaras de todas e nem se importaria em se vestir de príncipe, se fosse usar ela; ele seria um tipo de príncipe dos monstros! seria fácil dar um grande susto em todos na escola!
             A noite, ele vestiu-se com a fantasia que a mãe tinha lhe comprado, mas sem por a mascara; queria leva-la na sacola, chegar como príncipe, deixar todos darem risadas para então ir ao banheiro e deixar a magia acontecer. E assim foi: os meninos fizeram piada do principezinho chegando na escola, entre tantos monstros, e ele ali, galante e bonito. Mas hoje, ele não estava chateado. Hoje seria sua noite. Dez minutos depois que a festa tinha começado, correu para o banheiro...
            Aquela mascara não era só quente, era gosmenta também, principalmente por dentro. Parecia ser um rosto de demônio delicadamente arrancado e feito em mascara. Infelizmente Gustavo estava cego de vingança, só de pensar em como ele poderia abalar or nervos de todos com sua fantasia, o fazia tremer de emoção. Pegou-a com as duas mãos e colocou sobre a face.
           A gosma ou o que quer que fosse, aderiu a sua pele. Sentiu o interior da mascara grudando em seu rosto, quase como se estivesse virando um só, com ele. Seus olhos estavam exatamente nos olhos do demônio e sua boca... ele podia mover a boca como se fosse sua própria.  Olhou-se no espelho... e se sentiu perfeito. Fez uma pose assustadora e ensaiou um grito, mas, ao invés disso, soltou um urro assustador, um urro que com certeza não era seu. De inicio ficou assustado, mas resolveu não se importar, se continuar urrando assim, a noite seria perfeita.
          Saiu do banheiro; sua boca mexia-se inquieta, batendo os dentes uns nos outros, babando. Os olhos amarelos buscavam Fabiano e Michael, os dois insuportáveis que sempre o pegam pra piada, queria vê-los chorando como duas meninas essa noite! As meninas que estavam saindo do banheiro feminino deram de cara com ele. Gustavo quis testar o urro assustador nelas: abriu os braços e mais uma vez, aquele gritou aterrador saiu de sua boca. Imediatamente as meninas gritaram e correram para longe. Riu.
           Babando e fungando, Gustavo caçou os dois garotos pela escola. Não foi difícil acha-los, estavam na sala de aula, tramando alguma pegadinha para fazer com alguém. Apagou as luzes e entrou.
          -  Adivinha quem é? -  gritou, e mais uma vez, a voz que saia não era sua.
           Algo estava errado. Era pra ser só um susto. Quando os garotos começaram a chorar foi engraçado. Mas a graça acabou quando sentiu os dentes cravando na cabeça deles. O gosto do sangue dos meninos em sua boca o fez despertar para algo horrível: Fabiano e Michael estavam mortos. Marcas de mordidas podiam ser vistas por toda parte do corpo deles. Com as duas mãos, ele tentou tirar a mascara, mas ela não saia... pelo contrario, doía como se tivesse tentando arrancar fora o próprio rosto.
         -   Não quer sair! não quer sair! - gritava Gustavo.
       Com toda sua força, continuou a puxar, ele se recusava a ficar com aquilo preso no rosto. Sentia a pele rasgando, mas não e importava.
         Os gritos atraíram a atenção de algumas crianças que estava próximo. Quando entraram na sala, viram dois cadáveres parcialmente devorados e um garoto, vestido de príncipe, rindo, sem pele alguma no rosto: os olhos esbugalhados, boca sem lábios, ensopado de sangue.
         Aquela foi uma noite pra nunca esquecer. O Gustavo mostrou a eles, como é que se assusta alguém.
            

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A estrada

A estrada estava silenciosa e escura.
A única luz que a iluminava, com exceção da lua, era a daqueles faróis solitários do único carro que ousava cruzá-la a alta velocidade.
O único carro, em anos, que se atreveu a fazê-lo.
O horizonte era um ponto escuro e longínquo. Não havia nenhum farol à frente, nem mesmo um animal à beira do acostamento, pois até mesmo os animais temiam aquele asfalto maldito.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

The rake


        Eu estou escrevendo isso porque não aguento mais guardar só para mim. A muito tempo tenho vontade de expor isso, mas sempre temi que ninguém jamais iria acreditar: " a noite, com as luzes apagadas, quando eu já estou dormindo, aquela coisa aparece."
        Você, quem quer que seja que está lendo isso, já deve estar rindo e fazendo zombarias. não te culpo, pois eu mesmo não quis acreditar por um tempo, sabe como é, é mais fácil pensar que foi só uma impressão minha, do que ter que admitir que algo não está certo.
         Não é só o vento lá fora. Não é algo da minha cabeça e certamente, é algo preocupante. Eu sabia disso, só não queria acreditar, quer dizer, quem iria querer acreditar numa coisa dessas:  que quando você dorme, uma "criatura" aparece, sentada aos pés da sua cama, e fica ali, te olhando?
         No começo eu achava que era um sonho. Acordei numa noite, pois senti algo se mexendo na minha cama. Quando abri os olhos eu o vi: sua pele branca, parecia morta. Tinha alguns poucos pelos no corpo. Parecia machucado, como se tivesse sido atropelado. No começo senti pena dele, por sua aparência, mas aí, ele olhou para mim: seus olhos, oh meu Deus, aqueles olhos nunca mais saíram da minha mente! Eram grandes, escuros e vazios. Sua expressão facial era de certa forma triste e curiosa. Ele estava sentado de costas pra mim, mas seu corpo tinha virado para me olhar, como se não tivesse ossos nas costas ou algo assim. Aqueles olhos me olharam por uns segundos e aí... eu acordei. Era manhã, eu estava em casa e nada tinha acontecido.
          Isso tinha me feito lembrar de uma vez, quando eu era criança. Eu dizia ter visto algo no quintal de casa, mas ninguém nunca acreditou: meu cachorro tava latindo, eu acordei e fui falar pra ele ficar quieto, afastei a cortina pra olhar para fora e vi uma coisa estranha que eu nunca soube explicar: parecia uma pessoa pequena, encolhida, num canto, perto do portão...
            Hoje penso se não é a mesma coisa que vejo no meu quarto a noite. Se for, então ele está me perseguindo desde que eu era criança? será que me persegue porque eu o vi aquela noite?
             Enfim, os supostos pesadelos continuaram; pelo menos uma vez por semana ele aparecia em meus sonhos, ou pelo menos eu achava que sim... Numa manhã, acordando de um sonho com aquela coisa me olhando, eu notei um corte na minha perna, um fino e comprido corte. Achei estranho pois não tinha esse corte noite passada, foi então que eu comecei a ficar realmente preocupado. Passei a ter medo de ir dormir.
           Alguns dias depois, eu acordei assustado, pensando ter ouvido algo, e de fato ouvi. Lá estava ele, sentado no chão do meu quarto, no canto, me olhando com aqueles olhos horrendos. Dessa vez, ele não estava só olhando, estava sussurrando algo, ou assim parecia. E a voz dele era... é difícil descrever, mas sabe quando você fala dentro de um copo? tipo isso, mas muito áspera, não sei se consigo me fazer entender.

           Decidi procurar na internet, pra ver se tal coisa já tinha acontecido com mais alguém, foi aí que descobri uma lenda urbana conhecida como "The rake". Rake que em inglês quer dizer ancinho ou forcado, remete às longas garras que a criatura tem. A descrição do site que eu achei bate quase perfeitamente com a coisa que eu via: corpo machucado e olhos vazios. A melhor coisa que eu achei no site, no entanto foi o contato de um cara que dizia ter visto o rake. Eu não sabia se ele tava só brincando ou falando a verdade, mas eu estava desesperado demais e tinha que arriscar.
            Mandei um e-mail pra ele contando minhas experiências e ele me respondeu no mesmo dia; disse para eu  colocar um gravador ou câmera no meu quarto e me filmar dormindo durante a noite. O simples pensamento de fazer isso me fez gelar dos pés a cabeça; eu não tinha certeza se eu iria querer ver o que a filmagem iria pegar.
            Liguei minha câmera ao lado da minha cama, com a visão noturna. na primeira noite nada aconteceu, apenas uma barulho ao longe, que me lembrava o sussurro da criatura. na segunda noite, ele apareceu: estava ao lado da minha cama com as mãos sobre ela, olhando-me dormir. Num ponto da filmagem, ele pousou sua mão sobre mim e depois sumiu.
             Agora a porra tinha ficado séria! Postei meus vídeos no YouTube, mas em menos de 24 horas eles foram retirados do ar, e minha conta bloqueada, então resolvi escrever esse depoimento num blog, e fiquei surpreso com o numero de pessoas desconhecidas que estavam me apoiando. Rake, ou seja lá quem for ele, não aparece mais, nem em sonhos nem nas fitas. Um dos meus leitores disse que o segredo para se livrar dele é passar a palavra adiante, contar a todos que ele existe, e é o que estou fazendo agora. Se você que está lendo, passou por qualquer coisa do tipo, lembre-se do que leu aqui! Esqueça que isso é um blog de terror com histórias assustadoras mas seguras. Rake é real e ele está por aí, talvez, no seu quarto.
           Se alguma coisa te incomoda a noite, experimente se filmar enquanto dorme. Talvez você descubra o motivo.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sufocando

Ele me olhava.
O tempo inteiro.
Durante as aulas, no intervalo, quando estávamos praticando pênaltis na aula de Educação Física e – o que mais me arrepiava – na hora da saída também.
Ele não era um cara feio como são os maníacos que a gente vê nos filmes. Muito pelo contrário, ele era bem bonito. As garotas eram apaixonadíssimas por ele. Elas dariam tudo para ter uma noite com ele.
Eu não.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Miyabi Doll

  
     Havia a muito tempo atrás, uma rica família, que vivia numa casa muito grande. O homem era um comerciante, casado com a filha de um fazendeiro. Eles tinham dois filhos: O mais velho se chamava Kameo e a mais nova, a princesinha da casa se chamava Okiri. 
     Os irmãos eram muito ligados; Kameo passava horas brincando com a irmã, sempre que podia. Quando atingiu certa idade, seu pai começou a leva-lo para o trabalho com ele, para que o garoto aprendesse os negócios da família o quanto antes, deixando a pequena sozinha a maior parte do dia. As vezes, Kameo e o pai chegavam em casa muito tarde, e a menina já tinha ido dormir. 
      Numa manhã, Okiri acordou e viu uma carta ao seu lado; era dos eu irmãozão. Ele tinha deixado para ela na noite passada. Na carta ele dizia o que estava fazendo no trabalho e como sentia a falta dela. Okiri ficou tão feliz que resolveu fazer o mesmo e deixou uma cartinha para ele, sobre a cama dele. A troca de cartinhas virou costume, e assim, mesmo não se vendo tanto, Okiri não se sentia tão sozinha.
      Infelizmente, em 1932, aos 8 anos, Okiri ficou muito fraca por causa de uma doença misteriosa que medico algum sabia dizer o que era. Kameo tentava passar o maior tempo possível com a irmã, sempre lhe dizendo que logo ela ficaria bem. Mas ele sabia da verdade, não havia cura para Okiri e a cada dia, ela ficava pior, mas nunca deixava de sorrir, sempre que o irmão chegava em casa.
      Alguns meses depois, a criança morreu. Seu corpo foi cremado junto com todas as cartinhas que tinha do seu irmão. A família ficou muito triste; a mãe chorava muito, o pai passou a beber e o irmão, ficava horas sozinho, lendo e relendo as cartinhas deixadas pela irmã, onde contava o que ela fazia em casa o dia todo quando ele não estava.
      O quarto da menina continuava intocado, suas roupas e seus brinquedos e suas bonecas. Numa noite, quando estava sem sono, o rapaz teve a ideia de organizar as bonecas na prateleira. As bonecas eram feitas de madeira e todas vestiam quimonos muito bonitos. Com paciência,  Kameo arrumou todas as bonecas de modo que ficasse alinhadas. Quando terminou ele estava para sair do quarto quando resolveu dar uma ultima olhada nos quimonos da sua irmã e foi ai que ele teve uma grande ideia: iria contratar o construtor de bonecas para lhe pedir uma boneca que tivesse exatamente o mesmo tamanho de Okiri, com cabelos do mesmo comprimento e olhos de vidro, seria perfeito! Vestiriam ela com as roupas da garota, e ela seria imortalizada como uma verdadeira boneca, a maior de todas.

        No dia seguinte, o rapaz fez o pedido da boneca e em menos de um mês, lá estava ela: vestida e penteada como Okiri, de joelhos em uma almofada, cercada por todas as outras bonecas. Todas as noites antes de ir dormir, Kameo abria a porta do quarto e dava boa noite à boneca. Numa noite em particular, quando abriu a porta, notou que a cabeça da boneca estava numa posição um pouco diferente do que de costume. Ficou furioso; alguns dos empregados deve ter tocado nela. Entrou no quarto e arrumou-a como deveria ser. Quando estava saindo, notou que a mão dela movia-se lentamente, fechando e abrindo os dedos. Deu um pulo com o susto; olhou bem para a boneca, que não mais movia os dedos. Bobagem, pensou, fechou a porta e foi para o quarto.
       Quando foi deitar-se, viu que havia uma pedacinho de papel branco dobrado em sua cama. Abriu-o e era uma cartinha escrita com a letra de Okiri: " Kameo, não!". Ele tinha certeza que nunca havia visto aquela carta antes, talvez estivesse perdida e algum dos empregado a achou e colocou sobre sua cama para que ele pudesse guardar com as outras. 
         No outro dia, logo que acordou, Kameo encontrou outro papel dobrado sobre sua coisas. A letra também era igual a de Okiri, mas desta vez, parecia que havia raiva na escrita, as letras estavam maiores: " Eu não sou ela!".
         Amassou o papel com raiva, alguém estava brincando com ele. Se vestiu e saiu para ir trabalhar, e ao passar pela porta do quarto da irmã, ouviu um barulho lá dentro, como se fosse algo caindo no chão. Abriu a porta e viu a boneca grande caída. Com paciência, ajeitou-a na almofada como sempre. Foi até a porta do quarto, e pelo espelho, viu a boneca levantar o rosto e olhar para ele com seus frios olhos de vidro. Deu um grito e olhou para trás: a boneca estava como ele havia deixado. Olhou mais uma vez para o espelho... estava tudo ok. Trancou a porta do quarto da menina e levou a chave consigo para o trabalho.
        Naquela noite quando voltou pra casa, sua mãe lhe disse que os empregados ouviram barulhos estranhos no quarto dele durante a tarde. Ao entrar em seu quarto, Kameo se deparou com uma mensagem escrita na parede " Eu odeio aquela boneca! eu não sou ela!"
         Agora a coisa estava séria: ou alguém tava muito afim de morrer ou... Deu uns tapas no próprio rosto, por pensar bobagem. Com pano e agua, removeu a mensagem. Decidiu não dizer nada a sua mãe. Antes de dormir, foi olhar as bonecas. Tudo estava em ordem.
          Mais e mais mensagens começaram a aparecer para ele; em forma de cartas ou nas paredes. As vezes, os empregados ouviam barulhos e gemidos vindos do quarto de Okiri, até que, as mensagens começaram a aparecer pela casa. Kameo não podia mais esconder ou ignorar, quando as paredes da sala estavam cobertas de tinta preta e uma mensagem " Odeio aquela boneca!". Junto à frase, marcas de mãozinhas de criança. Um a um, os empregados abandonaram os patrões.
         A noticia se espalhou de que a filha dos Sato havia voltado para assombra-los e todos pareciam acreditar nisso. Todos menos Kameo e seu pai. Eles estavam certos de que tinha sido uma brincadeira de mal gosto de alguns dos empregados. A senhora Sato, no entanto não gostava nada disso. Numa tarde, ela implorou para o filho queimar a boneca, pois ela não estava deixando sua irmã descansar. A senhora Sato estava ruim da saúde, e o rapaz não queria piorar sua situação, então, decidiu se livrar da boneca naquela noite.
        Quando entrou no quarto, Kameo deu um pulo para trás: todas as bonecas pequenas estavam amarradas pelo pescoço, penduradas no teto. O coração dele acelerou ainda mais quando notou a boneca maior, de pé, no canto do quarto, com o rosto virado para a parede... na verdade, duas delas. No outro canto do quarto, estava uma segunda boneca, na mesma posição, com a mesma roupa e cabelos, exatamente igual.
         "Kameo" disse uma voz. " Qual delas sou eu irmãozão? Você sabe dizer? qual sou eu e qual é a impostora feita de madeira? Sei que sabe, não sabe?" uma risadinha de criança preencheu o quarto, e logo em seguida, a voz tomou um tom mais sério. " Não erre!".
          O rapaz estava apavorado de verdade agora; aquelas bonecas enforcadas sobre ele e aquelas duas bonecas no canto do quarto... e a voz de Okiri... Olhou para as duas: eram idênticas de costas. Fechou os olhos, tentou se concentrar e caminhou ate uma delas. Quando estava perto o bastante para toca-la, ouviu mais uma vez a voz: "Eu sabia que não iria me decepcionar. Obrigada Kameo, eu te amo" e então, a boneca a sua frente sumiu no ar. Soltou o ar que estava preso em seu peito e se deixou chorar.
          Do lado de fora, acendeu uma fogueira para queimar a boneca. Finalmente tinha entendido os sentimentos de Okiri,e poderia deixa-la descansar em paz agora. O fogo consumiu rapidamente o corpo de madeira. Porém, enquanto queimava, aqueles olhos de vidro, tão iguais aos dela, continuavam a olha-lo...


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Na estrada da vida

Depois de tudo o que passei, o destino cruel ainda me coloca nas mãos o poder de ser o carrasco ou o anjo salvador deste que arruinou minha vida. Hoje, tenho trabalho, família, dignidade, mas Deus sabe a que preço. Perdoar ou condenar? Peço ajuda, ou o abandono aqui à própria sorte, que bem sei ser a morte certa?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Harvest Moon: a maldição


    Você já ouviu falar em Harvest Moon? costumava ser meu jogo favorito quando criança, na época do super nintendo. No jogo, você é um garoto da cidade que herda uma fazenda do seu avó, em uma cidadezinha chamada Mineral Town. O objetivo final do jogo é fazer com que a fazenda volte a ser produtiva como era antes, dentro de 3 anos ( em tempo de jogo). Nesse tempo, você pode plantar todo tipo de vegetais para vender, cuidar de animais, participar de brincadeiras e competições na cidade, fazer amigos, namorar e casar. Eu gostava dessa interação, dessa possibilidade de escolher como prosseguir no jogo, coisa que muitos jogos modernos hoje não oferecem. Claro, existem versões modernas e harvest moon, que continuam nos moldes antigos. Elas são ótimas, pelo que pude ver, mas ainda assim, eu sentia falta da versão que eu jogava no super nintendo. 
     Fiquei na vontade por tanto tempo que até esqueci, até um dia que um amigo meu me disse que um conhecido dele estava vendendo um super Nintendo por um preço muito baixo. Na mesma hora, a nostalgia caiu sobre mim e eu soube que era minha chance de voltar a jogar meus jogos favoritos, que infelizmente eu não tinha mais nenhum; meu console assim como meus jogos foram todos vendidos a muito tempo.
      Entrei em contato com o cara, marcamos de nos encontrar para fazer negocio. Cheguei a pensar que ele nem iria aparecer, ou que o console estaria em péssimo estado, mas para minha surpresa, estava muito bom; obviamente usado, mas inteiro. Por aquele preço, valeria a pena. 
      No caminho de casa, eu passei numas lojinhas no centro da cidade, onde é possível encontrar coisas eletrônicas antigas, entre elas, cartuchos de videogame. Encontrei alguns jogos interessantes, mas nada de Harvest moon. Fui para uma outra loja, depois outra e outra. Estava sem sorte. No entanto, em uma das lojas, a moça do caixa disse que poderia procurar esse jogo pra mim com o vendedor dela. Deixei meu telefone e fui pra casa, com esperanças.
      Para minha surpresa, no dia seguinte a moça da loja me ligou, dizendo que o rapaz que vende jogos pra ela achou uma copia desse jogo, ele levaria pra loja a tarde, o preço: 30 reais. Quase dei um grito de alegria no meio do escritório, mas me contive; esse jogo estava sendo vendido por 90 dólares no ebay, e 30 reais era um preço incrível.
       Eu esperava por um cartucho pirateado ou em péssimas condições, mas, de novo para minha surpresa, eu estava com sorte: o jogo era original, era quase novo. Comprei-o, agradeci a moça e fui pra casa.
         Liguei aquele cartucho no videogame. No começo, deu uma demorada, uma longa tela preta, mas ai, o logo da Natsume apareceu e me aliviou, o jogo funcionava.  Apertei o start para começar e vi que já havia um save no cartucho, de um jogador chamado Zalgo. Eu não queria pegar um jogo começado, queria fazer o meu, desde o começo, então ignorei Zalgo e criei o meu arquivo com meu nome. Joguei por umas horas, cultivei nos campos, cuidei dos animais; o tempo voou. Numa hora, quando o comprador de mercadorias chegou para coletar os produtos do dia, ele não falou sua fala de sempre, ao invés disso, ele ficou em frente a caixa de coleta, parado. Fui falar com ele, mas sua resposta foi uma longa linhas de pontos: "............."
      Não era como se ele estivesse me ignorando, era como se não estivesse podendo falar. Apertei o botão para voltar a falar e desta vez, ao invés dos pontos, vieram vários símbolos, como se fosse outra língua. Tentei ler aquilo, mas não era língua alguma que conhecia. No meio das letras e símbolos, reconheci uma palavra "ZALGO". Esse era o nome do outro save game que já estava no cartucho. Era um bug, pensei, acho que o save anterior tinha corrompido o meu. Reiniciei o jogo e deletei o arquivo Zalgo. Voltei ao meu save e o comprador estava normal como sempre, pegou os produtos do dia e se foi. Salvei o jogo e desliguei para ir descansar um pouco, não estava com nem um pouco de pressa em terminar esse jogo.
        No outro dia, eu estava de bom humor: trabalhei bem e foi um ótimo dia pra mim. Quando voltei pra casa, comi alguma coisa e fui jogar. Dei um pulo da poltrona, quando carreguei o jogo e vi que o arquivo Zalgo estava lá de novo. Fiquei curioso sobre o save e o selecionei para ver o que o antigo jogador estava fazendo. Logo que o jogo carregou, eu note que algo estava bem errado: toda a plantação estava morta, a casa estava em ruínas, os animais tinham sumido. Entrei na casa, que estava destruiria por dentro também, e vi Ann, a esposa do personagem, parada em frente a um berço vazio. Um dos objetivos do jogo era ter um filho, e nesse save o antigo jogador já deveria ter conseguido, ou não. Não havia nada no berço. Tentei falar com Ann, mas ela não respondia, apenas permanecia ali, imóvel, com uma expressão triste, que, apesar dos pixels do 16-bits, era claro que ela estava triste.
       Tentei falar com ela varias vezes, mas nada acontecia. Decidi sair da casa para olhar a cidade, mas quando estava saindo da casa, a caixa de dialogo de Ann abriu, como se estivesse falando do quarto: " é assim que acaba?" disse ela. Voltei para falar com ela, mas o mesmo se repetiu; permaneceu estática na frente do berço. Saí da casa e fui para a cidade. Não fiquei surpreso ao ver tudo como na fazenda: ruínas destruídas. Todas as casas estavam fechadas, o único lugar que pude acessar era a igreja. Entrei nela e vi todos os personagens da cidade, ali dentro, com o padre à frente. Uma musica aguda começou a tocar, parecia uma bug no jogo, porém, ele rodava normalmente. Uma caixa de diálogos apareceu, com aquelas letras e símbolos da outra vez, como se todos estivesse orando. Nesse momento, eu comecei a sentir medo mesmo, mas queria ver onde isso iria parar.
       Me aproximei do altar, e então o padre falou:
     - Zalgo está aqui! Já podemos começar.
       O personagem andou sozinho, foi ate o altar, onde um bebê estava deitado, então, o padre lhe deu uma faca. O fazendeiro a ergueu sobre a cabeça.
     - Vamos Zalgo. É o melhor para todos. - disse o padre.
       E ai, ele enfiou a faca no peito do bebê, espalhando seu sangue sobre o altar. Nesse momento, tentáculos negros saíram da ferida no peito do bebê. Uma caixa de texto apareceu com o nome ZALGO em caixa maior, como se todos estivessem gritando seu nome. Os tentáculos cresceram e se espalharam por toda a igreja e logo, pela cidade toda. 
        Eu nunca se quer tinha pensado que uma coisa daquelas pudesse ser real, era pra ser só um jogo, mas aquilo ja tinha passado dos limites! Se nao bastasse, todos os personagens da igreja começaram a rir; em suas caixas de texto, apareciam as palavras "hahahaha" e um por um, eles explodiram em pocinhas de sangue pixelado, e de seus cadáveres, mais tentáculos negros se ergueram...
       Soltei o corpo no sofá, e estava muito tenso, mas parece que finalmente havia acabado, a tela ficou escura e a musica parou. Quando pensei em desligar o videogame, Ann, a mulher do fazendeiro apareceu no meio da tela. Seu rosto ainda estava triste e me olhava como se de fato pudesse me ver. " Você foi com isso até o final" disse ela, em texto. Então, a barriga dela foi crescendo lentamente, como se meses de gravides estivesse passando em segundos. Cresceu até que chegou ao tamanho máximo de gravidez no jogo, então Ann voltou a falar: e agora," o que vai fazer?" 
        Tomei um susto com o telefone tocando bem naquela hora. Fui atender e era minha namorada, ela estava nervosa, quase chorando. Ela estava grávida, tinha acabado de confirmar no médico...
         Enquanto a ouvia chorando no telefone, olhei para a Tv, e a mensagem de Ann ainda estava lá " e agora, o que vai fazer?". Ann já havia sumido, mas a mensagem ainda estava ali. Senti o corpo todo tremer. Arranquei o cartucho do videogame e o ataquei na parede, para que aquilo nunca mais pudesse ser jogado por ninguém!
        No dia seguinte corri até a loja, eu queria saber quem era o maníaco que revendeu aquele jogo, eu queria saber qual o problema dele, mas... a loja estava fechada. Tentei olhar pela janela, e vi que estava vazia por dentro... cai em desespero, não fui trabalhar aquele dia.
         Minha namorada está mesmo grávida, ela está muito triste e perdida, assim como eu. E agora, o que eu vou fazer?
     





















sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Frequência Infernal


Eu estava entediado aquele dia.
Munido de um pacote de Doritos e muita Coca-Cola, apaguei as luzes do meu quarto e naveguei na internet. Estava sozinho em casa, meus pais saíram para algum jantar idiota com gente chata. Não quis ir, obviamente. Era humilhação demais sair para jantar com os pais e um monte de gente velha numa noite de sábado.
Para não ficar ainda mais deprimido e sozinho, liguei o rádio numa estação qualquer da internet. Estava tocando umas músicas velhas, estilo anos 80, mas deixei mesmo assim. A música me fez lembrar GTA Vice-City. Até cogitei jogar, mas estava a fim de mexer no computador. Então permaneci na internet.
Lá pelas tantas, não havia mais nada o que olhar. Apesar das possibilidades infinitas, em algum momento a internet acaba. O que eu poderia ver em seguida? Não queria ver pornografia, meus pais poderiam chegar a qualquer momento, eles não falaram nada sobre horário.
Abri o Google e permaneci com os dedos alguns centímetros acima do teclado, de olhos fechados, experimentando o ar, aguardando uma inspiração.
Então digitei a palavra “medo”.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Homem dos Sonhos (V) - No Limite dos Pesadelos


Capítulos anteriores:

Parte 1/Parte 2/Parte 3 Parte 4

Quando alguém olha debaixo da sua cama, pode encontrar algumas surpresas. Um sapato sem par que não é usado faz séculos, uma caixa de fotos antigas com imagens de pessoas esquecidas, restos de comida criando mofo, ou até um rato morto. Aline preferia ter encontrado um rato morto. Em vez disso, ela encontrou um buraco aparentemente sem fundo.

O grande problema é que ela só descobriu isso quando já estava caindo. E a constatação de não haver fundo vinha do tempo em que ela estava caindo dentro da escuridão, sem nenhum indício de sua queda encontrar seu fim.

E ainda havia o som terrível como um grito de desespero que se ecoava por todos os lados.

O grito era dela mesma, a propósito.

Mas como tudo que tem um começo também tem um fim, seu mergulho nas trevas terminou abruptamente com o som de algo se rachando e ela imaginou serem seus ossos.

Ficou surpresa ao descobrir que não tinha nada quebrado em seu corpo, apenas um pouco dolorida no ponto em que seu corpo atingiu o chão. Por sorte foi um ponto macio. Olhou ao redor e precisou piscar algumas vezes para se adaptar a luz de penumbra do ambiente. Estava em um lugar ambiente escuro e úmido, como o interior de uma caverna.

Aterrissara em uma pilha de grandes pedras escuras, que possuíam uma textura frágil, como a casca de um ovo. Havia uma rachadura sob ela de onde vertia um líquido amarelado nojento, mas não teve muito tempo para entender onde estava, pois o monte começou a desmoronar debaixo dela.

O que pareciam ser um amontoado de pedras revelou-se uma série de carapaças com pernas finas, antenas, olhos e bocas movendo-se. E não pareciam nem um pouco felizes por Aline ter esmagado uma delas com sua queda.

As carapaças, cada uma delas quase o dobro do tamanho de uma pessoa, a rodearam, certamente imaginando que ela seria uma presa fácil. E não estavam enganadas. A visão destes seres despertou um medo primitivo que deixou Aline totalmente paralisada de pânico.

A cada instante o círculo ao seu redor se fechava mais e mais, conforme aqueles seres asquerosos se aproximavam. Suas antenas se movendo de um lado para o outro com cada passo que davam em sua direção.

Ficaram tão próximos que ela podia ver um líquido gosmento escorrer de suas bocas e seu reflexo em seus olhos multifacetados. Mas quando estas mesmas bocas chegaram ao ponto de quase tocá-la, algo dentro dela despertou. Como um animal que, diante de um inimigo superior e ao mesmo tempo tem qualquer possibilidade de fuga negada, ela fez a única alternativa ao seu alcance, e golpeou a criatura mais próxima com qualquer coisa que tivesse a mão.

A cabeça insectóide dobrou-se para o lado com um estalo alto pela com a força do golpe desferido. As demais criaturas ficaram paradas, algumas deram um passo atrás. Aparentemente não esperavam nenhuma resistência.

Diante da hesitação de seus algozes e com o coração batendo acelerado, Aline agarrou o objeto com as duas mãos e partiu para o ataque, golpeando cegamente.

Dois monstros caíram do seu lado antes que os outros começassem a reagir. Alguns se afastaram, possivelmente temendo serem as próximas vítimas de sua fúria assassina. Outros tentaram atacá-la por trás. Girando o corpo, golpeando um deles, o que fez os outros hesitarem por um instante, enquanto suas antenas moviam-se freneticamente.

Aline olhava todos ao seu redor sentindo a tensão em seu corpo, como uma mola pressionada ao seu máximo. Suas mãos erguidas ao lado de sua cabeça unidas ao redor do objeto que lhe servia de arma. Sua respiração arfando, aos poucos foi reduzindo de intensidade, se acalmando. Mas se acalmar era o que ela menos queria nesse momento, porque com a calma viria novamente o medo, e medo era um luxo que ela não podia mais se permitir naquele momento.

- Vocês querem mais? Então venham pegar! - bradou em desafio.

Aparentemente, este era todo o incentivo que as criaturas precisavam, pois como um só eles voaram para cima dela. Ela brandiu sua arma para um lado e para o outro, a cada golpe derrubando um deles.

Mas eles eram muitos, incontáveis.

Era uma batalha condenada desde o início.

Eles a agarraram e puxaram para todos os lados, o objeto que ela usara como arma foi arrancado de suas mãos, e eles continuaram puxando, esticando seus braços e pernas abertos. O movimento das antenas agora parecia uma gargalhada silenciosa, zombando de sua presa. Sentia a dor em suas juntas se espalhando por seu corpo e gritou, certa de seu fim.

Repentinamente, a pressão em seu braço esquerdo afrouxou, e sentiu o movimento ao seu redor, enquanto passaram a puxá-la para uma única direção pelos outros membros de uma forma desajeitada.

Aline foi derrubada quando um vulto negro voou por cima de si sobre seus algozes. Observou perplexa enquanto o vulto pulava de criatura em criatura que saiam em debandada, dispersando-se e enfiando-se em quaisquer buracos escuros que encontrassem para se refugiar. Levantou-se rapidamente e olhou em volta em meio a confusão, procurando lugares para se esconder.

O vulto já se encontrava a uma certa distância quando retornou lentamente. Aline procurou algum objeto com o qual pudesse se defender, mas não havia nada além dos corpos caídos dos grandes insetos que a atacaram, e cujos sobreviventes já não estavam mais a vista. Afinal, não sabia se fora salva, ou se era um aperitivo disputado para o jantar.

Conforme o vulto se aproximava, foi se tornando possível distinguir-lhe as formas, como se ficassem pouco a pouco mais nítidas. Era algo como uma grande pantera, maior do que qualquer uma que Aline já vira, não que ela já tivesse visto alguma pantera em sua vida, mas a criatura de pelos negros que agora se aproximava em passos lânguidos e trazendo algo em sua boca chegava quase a altura de seu peito.

Contraditoriamente, ao olhar para os olhos que pareciam dois brilhantes cristais de âmbar, Aline sentiu uma onda de alívio atravessar seu corpo e relaxou sua guarda. Reconhecera algo neles, algo que sua mente racional insistia em dizer ser impossível, mas sua mente racional não parecia ser a melhor conselheira neste momento.

- Tom!? É você?

A pantera negra estreitou seus olhos, dando a impressão de estar prestes a dar o bote. Soltou o objeto em sua boca e levantou a cabeça de forma imponente.

- Sir Thomas III, cavalheiro da irmandade dos gatos negros. - disse com um forte sotaque, parecendo um ator de um filme antigo. - Sim, sou eu!

- Você não parece com nenhum cavaleiro que eu já tenha visto. - Aline comentou de forma abrupta.

- Eu disse cavalheiro! Ou você consegue me imaginar em cima de algum cavalo?

Ela conseguia. E teve de prender o riso com a imagem que conseguia ser menos surreal do que o fato de que estava conversando com uma versão gigante do gato de sua irmã.

- O que eram aquelas coisas?

- Vermes que infestam todos os mundos, rastejando na escuridão, sobrevivendo da podridão dos outros. Em seu mundo vocês os chamam de baratas. - ele respondeu se abaixando para apontar para o objeto que trouxera em sua boca. - Estavam atrás disso. Você deveria tomar mais cuidado com algo tão valioso.

Aline pegou o objeto do chão onde Thomas o deixara e notou surpresa ser o mesmo que usara como arma, minutos atrás.

- Mas isso é apenas um urso de pelúcia!

- Claro, assim como isso no seu pescoço são apenas duas hastes de metal dourado perpendiculares entre si.

Ela ignorou o sarcasmo na voz do felino e tocou a cruz dourada por um instante como para ter certeza de que ainda estava lá.

- Que lugar é este? O que estamos fazendo aqui?

- Estamos no limiar do reino dos pesadelos, e eu trouxe você aqui para me ajudar a salvar sua filha. Mais alguma pergunta tola ou podemos seguir em frente? - ele respondeu mostrando os dentes e dando-lhe as costas sem esperar por resposta.

Ela ainda tinha muitas perguntas, mas como não sabia qual delas se enquadrava ou não na categoria “tola” preferiu se calar por ora. Pegou o urso ainda caído e seguiu Sir Thomas aonde quer que ele a estivesse guiando. Ele mencionou que estavam ali para salvar sua filha e isso era mais importante do que qualquer outra coisa.

* * *

Nos sonhos, às vezes vamos de um lugar para o outro sem nos darmos conta de como isso aconteceu. Ao tentarmos relatar estes deslocamentos no dia seguinte, nos confundimos, chegando ao ponto de dizer “era ali, mas também era lá”.

Desta forma, o cenário ao redor de Aline e Thomas mudou de uma caverna úmida e rochosa para uma densa floresta de plantas semelhantes a trepadeiras petrificadas retorcidas e emaranhadas como uma gigantesca teia de aranha, das quais brotavam frutos murchos enegrecidos, cada um do tamanho de bolas de basquete que exalavam um odor pútrido.

Thomas ia na frente agachado, com passos curtos e lentos, como um gato à espreita de um pombo desavisado. Aline o seguia sem um pio, já participara de tocaias o bastante para saber a importância da discrição a fim de não avisar o alvo de sua presença.

Sentia falta de sua pistola. A segurança do aço frio em suas mãos ajudaria a aquietar seus espírito, além de dar algum senso de realidade a toda aquela loucura.

Virou-se de repente, esquadrinhando a mata ao seu redor. Não vira nada, mas sentira alguma coisa, como um movimento no canto do olho. Voltou-se novamente para o outro lado. A mesma sensação, mas ao olhar, não havia nada lá.

Pensou em avisar Thomas, mas viu que ele já se distanciara, aparentemente não se importando em deixá-la para trás. Rangendo os dentes de raiva ela apertou o passo para alcançá-lo. Sentia que algo a observava e olhava para os lados sem enxergar nada por entre as folhagens. Sem perceber, apertou mais o urso em suas mãos, como quem segura uma arma em uma situação de risco, ou como uma criança com medo do escuro.

Na pressa ela pisou em um dos estranhos frutos enegrecidos que estava espatifado no chão em seu caminho. Seu rosto se contorceu de nojo quando sentiu um cheiro de ovo podre, vinagre alguma coisa excessivamente doce se espalhar. Ergueu o pé de onde escorria um líquido viscoso e conteve uma ânsia de vômito.

Novamente teve a sensação de ser observada, mas diferente de antes ela ficou etática, fingindo prestar atenção nos pequenos fragmentos brancos como ossos que não pareciam nem um pouco com sementes dentro do fruto em que pisara. Enquanto isso, tentava enxergar o que quer que despertava os seus instintos com o canto dos olhos.

E foi assim que ela viu o vulto.

Não podia distingui-lo muito bem, parecia ser uma pessoa, mas tinha certeza de que estava ali. Viu que Thomas se distanciara de novo, e contra toda a prudência chamou por ele.

O grande gato negro levantou suas orelhas e voltou-se em sua direção, ao que ela lhe fez um sinal para que retornasse, o que ele fez após apenas um momento de hesitação.

- O que foi? - ele perguntou com um leve rugido quando já estava próximo dela.

Ela fez um sinal discreto para o lado em que vira o vulto, mas Thomas continuava olhando para ela de forma inquisidora. Aline tentou mais uma vez, fazendo um gesto com a cabeça, nem tão sutil, na esperança que ele caísse em si. Quando isso não deu certo ela soltou um suspiro, vencida.

- Tem alguma coisa ali. - e apontou, claramente dessa vez.

Thomas respirou fundo e olhou rapidamente para a direção para onde ela apontava antes de responder.

- Não há nada ali. Nada importante, pelo menos. Apenas alguns sonhos perdidos. É com os corvos que precisamos nos preocupar. Esta área é infestada deles, e já deveríamos ter encontrado alguns a esta altura.

- E o que faremos agora, então?

- Nós não faremos nada. Você fica aqui e aguarda. Eu vou na frente para tentar descobrir o que está acontecendo.

- Ficar aqui? Por que não posso ir com você?

- Porque iria me atrasar, como já está fazendo. - ele respondeu dando-lhe as costas. - Permaneça na trilha e ela te protegerá.

Aline abriu a boca para dizer o que pensava para aquele gato vira-lata, mas com um salto ele já havia desaparecido, como se feito de sombras. Deixando-a sozinha resmungando sobre como iria transformá-lo em tamborim assim que voltassem para casa.

Então olhou para a vegetação ao seu redor e deu-se conta de estar completamente só em um lugar estranho e desconhecido e se perguntou se conseguiria voltar para casa.

A sensação de estar sendo observada se intensificou e ela inconscientemente apertou o urso de pelúcia em seus braços. Sentia-se desolada como uma criança perdida em um lugar escuro. Parecia sentir um vulto se movendo ao seu redor sempre que não estava olhando.

Quanto tempo já havia se passado desde que Thomas havia partido? Ela não sabia dizer. E se ele não voltasse? E se sua filha já estivesse morta? Conforme as perguntas se acumulavam em sua mente, sua respiração acelerava.

Dizia para si mesma que estava imaginando coisas. Thomas dissera que não havia nada lá.

Nada de importante, ele dissera.

Em meio a estes pensamentos inquietantes, ela ouviu algo. Primeiro achou que fosse o vento, mas percebeu que as folhas não se moviam. Prestou atenção e notou se tratar de uma voz. Tentou identificar o que dizia e ficou surpresa ao notar que chamava por um nome.

Seu nome!

Aline levantou-se em alerta e apurou os ouvidos para ter certeza de ter escutado certo.

Sim, a voz sussurrava seu nome. Aline. Aline. E não era uma voz qualquer. Ela a reconhecia.

Com pouco esforço conseguiu determinar de onde vinha. Cada vez mais a voz ia se tornando mais nítida, mesmo que parecesse distante.

Quando ia entrar na mata, ela hesitou. Olhou para a direção por onde Thomas partira e lembrou-se de sua recomendação para permanecer onde estava. Mas a voz insistia e ela tomou sua decisão.



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Mecânico




– Bom dia… Só um minuto que eu já abro.
Eliz correu para abrir o portão da garagem para o mecânico. Ele era alto, corpulento, barba por fazer, e logo de cara fez a jovem se assustar com o olhar Ed poucos amigos. Os braços musculosos saltando pra fora da camiseta, lotados de tatuagens estranhas, como aquelas de ex presidiários, chamavam a atenção rapidamente.
– É aquele ali? – perguntou apontando uma caminhonete
– É... É esse mesmo... – disse meio trêmula.
Tentou entregar-lhe a chave do carro, mas ele pediu apenas que abrisse a porta. A ideia de ter que ficar fechada na garagem, sozinha, com aquele homem era um tanto estranha.  Apertou o botão do controle e ficou encostada na grade da rampa enquanto ele caminhava a passos pesados até o carro. O modo esforçado como abriu o capô e os gemidos que lançava vez ou outra, devido à força de desatarraxar a peça, foram bastante exagerados. Eliz só queria que ele fosse embora para que ela pudesse voltar a seus afazeres.
– Ei moça, poderia me ajudar aqui? Segura a lanterna, por favor...
O pedido a fez tremer de cima a baixo. Era só apoiar a lanterna no carro, pra que tinha que ela segurar? Alguma coisa tinha ali... Mesmo desconfiada foi, pois precisava do carro arrumado e daquele homem fora de suas vistas. Quanto antes, melhor... Se ela ajudasse pelo menos ele não teria desculpas para não terminar logo o serviço.
– Assim? – perguntou meio impaciente.
– É... Exatamente assim. Você está exatamente onde eu queria... – o tom lascivo da voz dele a assustou ainda mais. Não sabia dizer se ele falava com a peça que tentava soltar, com a luz ou com ela mesma. Na duvida era melhor não arriscar. Deu um passo atrás, mantendo o braço esticado, para que a lanterna ficasse no lugar. Mantinha a cara amarrada todo o tempo.
– Sabe, é uma belezinha... Tem jeito de ser bem potente. – voltou seus olhos negros como a noite para Eliz, que já não sabia o que pensar. Tentava se lembrar quem lhe indicara aquele mecânico, mas em sua mente só existiam aqueles olhos a devorando.  Quando deu por si as ferramentas estavam já no chão e ele ia em sua direção. – não vai demorar muito mais...
A jovem não sabia o que fazer. As pernas pareciam gelatina, não a obedeciam e ele continuava se aproximando. Como num estalo seu cérebro religou e conseguiu correr, mas ele corria atrás dela. Pensou em gritar, mas não havia ninguém para ouvi-la, não tinha maneira de chegar até a porta, o controle da garagem parara de funcionar – outra vez... Tinha que reclamar com o sindico se conseguisse escapar dessa – e não havia nenhuma possível saída para ela. O homem continuava a cercando, entre risos e gemidos, uma respiração ofegante pela corrida e a língua passando pelos lábios rachados, levando a eles uma baba gosmenta. Estava encurralada. O sorriso dele era de triunfo enquanto chegava mais e mais próximo. Eliz já começava a implorar e rezar quando percebeu que o extintor de incêndio ainda estava na parede. Ao menos alguma coisa nesse prédio estava dentro dos regulamentos. Sem medo, dó ou piedade rasgou o rosto do homem, que se encontrava a poucos passos de seu corpo, com a chave do carro, fazendo-o cambalear para trás, com dor. Apesar da pequena dificuldade, com algum esforço conseguiu pular a grade atrás de si – rasgando a barra do vestido que usava – e chegar até o objeto vermelho, que significava sua salvação.
– Hey, mocinha, acho que agora acabamos aqui!
O homem estava furioso, o extintor parecia pregado na parede e Eliz simplesmente não conseguia soltá-lo. Estava em desespero, chorando e puxando, quando sentiu aquela mão enorme em seu ombro. Fechou os olhos e dessa vez não se conteve, gritou o mais que sua voz permitiu.
– Dona... Qual o problema? – as pálpebras de Eliz se abriram e suas pupilas dilatadas pelo medo encontraram a imensidão daquelas bolas de gude oculares. Ele parecia bem assustado. Estava parado à sua frente, e ela ainda segurava a lanterna, que em poucos segundos foi ao chão. O que tinha acabado de acontecer? Estava com a respiração ofegante e tratou de se afastar dele, como se fosse um monstro – Olha, se precisar eu chamo um médico pra senhora... Ta tudo bem?
– Ta... Ta sim... – disse sem muita certeza – O que você quer comigo?
– Eu ia avisar que já ta pronto o carro... – ele parecia não entender – E que agora eu tenho que ir embora. Mas daí eu vi a senhora toda pálida e parecendo que tinha visto um fantasma, me assustei. Ta tudo bem mesmo? Quer que eu telefone pra alguém? A senhora vai ficar bem sozinha? Se quiser eu chamo uma ambulância... Eu tenho um primo que é médico, e ele sempre diz que em casos assim tem que chamar uma ambulância... A senhora sabe quanto é 2+2? É que ele diz que é importante manter a pessoa lúcida e fazer perguntas pra saber se o cérebro tá ok...
– Não... Eu to ok... Sério... – passou a mão trêmula pelo rosto.
Estava desconcertada. Aquilo tinha sido tudo fruto da sua imaginação? Acompanhou-o para a porta, e enquanto entregava-lhe o valor do conserto reparou que a tatuagem de seu braço esquerdo, uma das que mais a assustara de inicio por parecer algum tipo de monstro – talvez algum motivo satanista –, era na verdade um desenho de criança, bastante torto e descoordenado, com os dizeres “à minha eterna princesa, que tanto amo, Emily... Saudades eternas” .  

-x-
***Nota da autora: Vivemos em um mundo tão caótico que não raras vezes nos deixamos levar pelas aparências, imaginando situações onde não existem. Deixamos que o mundo nos diga que pessoas X são más, pessoas Y são boas e não paramos pra pensar que isso é bobagem! Às vezes o terror está apenas em nossa mente, servindo de esconderijo para algo muito mais assustador: o preconceito.