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sexta-feira, 28 de junho de 2013

No final do túnel


Tudo o que eu via era um túnel negro, escuro e brilhante.
Não havia luz no final do túnel.
Havia sim uma escuridão infinita que significava morte e medo. Um medo paralisante que me impedia de falar e gesticular, e eu tinha tanto, tanto a dizer...
O túnel era um cano longo, preto e liso de uma pistola.
Aquilo não fazia sentido algum. Meu marido, meu próprio marido, apontava uma arma para mim, os olhos frios e estreitos, decididos, enquanto eu me encontrava sentada na cama, paralisada de terror.
Paralisada de verdade.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Apenas Um Sonho...? - Parte I





A luz fraca do fim da tarde passava por entre as copas das árvores. Uma jovem de longos cachos acobreados passeava pela floresta, em seu traje campesino, recolhendo algumas flores e ervas. Um som estranho chegou até seus ouvidos e os olhos verdes percorreram o entorno, não encontrando nada de diferente. Cantarolava uma antiga música, ensinada por sua avó há muitos anos, enquanto colhia o que precisava para enfeitar e perfumar sua pequena cabana ao pé da montanha.
- Ali está ela. – a voz era baixa e um pouco rouca – Vê? Está recolhendo material para algum de seus hediondos feitiços.
- Devemos detê-la em nome do bom Deus, nosso Senhor! – o oficial estreitava os olhos para a figura esguia que balançava levemente ao som de sua própria canção. Parecia um coiote visualizando a presa, com olhos famintos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A outra Parte de mim (IV)



Tatiana segurou a mão de Thaís para ficar de pé, ainda assustada com aquilo tudo: a prisão, a floresta, sua transformação em monstro, a garota voadora que grita e agora... Thaís...a mulher-águia, que depois de bicar até a morte a gritadora, transforma-se em humana e lhe estende a mão, oferecendo sorriso e segurança.
    • Vamos, temos que ir a um lugar seguro, se ficarmos aqui muito tempo...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A caixa mágica

Ouvi essa história por aí, nas rodas de bate-papo, entre um cafezinho e outro. Todo mundo sabe que é nessas mesas anônimas, entre uma xícara e outra – e, muitas vezes, entre um copo de cachaça ou de cerveja – que a gente ouve todo tipo de história; algumas são boas para dar risada, mas outras são escabrosas, do tipo que a gente quer fingir que não ouviu porque dão pesadelos à noite, quando o sono não vem e a noite é infinita.
Pois é, essa é uma dessas histórias de botar medo na gente.
Quem me contou foi um amigo de um amigo meu e disse ele que a história era de um amigo de outro amigo dele. Você sabe como são essas histórias...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A outra parte de mim III

           

           As crianças se apertam umas às outras, com medo. O Tigre encara a menina lobo com seriedade; logo outros guardas ou coisa pior apareceriam ali, mas ele tinha que fazer algo para proteger as crianças que ainda estavam vivas.

       A loba pula sobre o tigre, tentando rasga-lo com unhas e dentes, mas é habilidosamente imobilizado pelo oponente; o tigre branco segura as mãos da loba, impedindo o ataque. Depois, acerta uma joelhada no estomago dela. Ainda segurando-a pelos pulsos, ele a arremessou de cabeça contra o muro. Estava seguro da força dela, sabia que aqueles golpes não a matariam, mas quem sabe a dor a assustasse?

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O grito sufocado


De repente, não mais que de repente, o céu tão negro tornou-se branco.
Não de estrelas, não de sol, mas de névoa. Turvo pelas lágrimas, o céu tingia-se pelo sangue que escorria dos nossos olhos e da nossa alma, que sangrou e sangrou por tanto tempo, calada.
O peito ardia. O grito não saía.
O silêncio é uma mordaça. Engasga como veneno. O silêncio é violento. Machuca como a lâmina. O silêncio é triste. Mata lentamente.
Gritos na rua. Pés no asfalto, sobrepondo-se depressa. Rosas despedaçadas no chão, com todos os seus sonhos pisoteados, como se nada significassem.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Referências

Ele tinha que descer doze quarteirões para poder pegar o ônibus a tempo. Cada dia nessa função, ele amaldiçoava algo ou alguém por morar tão longe da rua principal da cidade – e, portanto, da parte da cidade que "importava". E o fazia com muita dramaticidade:

Porca miseria! Eu não merecia um tratamento tão desprovido de apreço e consideração!!!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A outra parte de mim II

        
           Correndo descalça pelo corredor frio, ela apertou forte nas mãos, os trapos que restam de suas vestes. Não conseguia deixar de pensar naquela "pessoa" que a tivera salvo: um tigre, um monstro, uma pessoa... Ela sabia que algo acontecia dentro dela, e que ela mudava a aparência, mas seria ela também um tigre branco? Seus pensamentos foram interrompidos ao pisar em uma poça de sangue quente.

domingo, 9 de junho de 2013

Pintura das Sombras - Prologo


Ao contrário de praticamente todos os membros da família Phillip, Ariel não se interessava por números, juros e lucros, o que era uma decepção para seu pai. A família era historicamente conhecida por criar e manter o maior banco grande cidade, e o único tão duradouro naqueles tempos tão difíceis.
Nos estudos, Ariel revelara um grande interesse pelas artes e uma baixa afinidade por cálculos e outras áreas necessárias para manter a máquina do capitalismo. Vivia com livros pra todos os lados, saia para assistir peças e até mesmo já havia participado algumas vezes de algumas. Mas o que mais interessava ao garoto era a pintura. Mesmo a contragosto de seu pai, adquirira todos os apetrechos necessários para tal pratica, tomou aulas escondido com uma mestra que se tornara também uma amiga e confidente.
Ariel era um garoto não tão grande quanto deveria ser na sua idade, doze anos. Tinha pele clara, cabelo liso e olhos negros brilhantes. Vestia sempre roupas coloridas e um belo sorriso. Mesmo com as brigas com o pai, costumava conseguir tomar as lições que ele lhe impunha e ainda conseguir praticas seus gostos escondidos. Tudo isso era possível graças sua mãe, que lhe acobertava sempre.
Mas um dia, o “sempre” acabou.
Era um entardecer, Ariel voltava para casa às pressas, antes que seu pai chegasse do banco. Voltava sozinho, correndo. Não podia contar com o motorista da família, ele o entregaria. Chegando próximo de casa, notou uma estranha movimentação por ali. Muita gente entrava pelo portão que estava aberto, o jardim estava repleto de desconhecidos. Também havia a polícia. O coração do garoto congelou.
Com muito esforço, conseguiu passar por meio da multidão que formava um círculo ao redor de algo. Viu sua irmã e seu pai de joelhos ao lado de algum que estava deitado. Uma poça de sangue se formara ali. Alguém estava seriamente ferido.
Então, o pequeno Ariel conseguiu chegar perto. E seu mundo desabou todo de uma só vez. O corpo ensanguentado era de sua mãe. Havia sido esfaqueada, seu corpo estava praticamente irreconhecível, o rosto também tinha vários cortes, assim como todo o corpo. Já estava morta quando Ariel se ajoelhou ao seu lado.

Aquele momento de profunda dor, não deixou que Ariel percebesse o olhar fulminante de seu pai, ao ver suas roupas sujas de tinta.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O perfume da morte


Quase onze horas da noite. Edvaldo estava sentado no meio fio da calçada, bebendo umas e outras, uma vontade louca de esvaziar a bexiga e o saco, tudo junto. Não lembrava a última vez que vira uma mulher nua, talvez só em revista. Estava cansado de fazer aquilo sozinho. Cansado. Entornou mais um gole; a cachaça desceu raspando.
Foi nesse momento que a viu.
Era uma mulher. Gostosa, jovem, cabelos longos. Passou de bicicleta, pedalando rápido, olhando para os lados, desconfiada. Seu olhar bateu com o Edvaldo, e então ela pedalou mais forte e mais rápido.
Edvaldo sorriu de canto de boca. Entornou o último gole da malvada, subiu na sua própria bicicleta, que estava encostada ao muro, e começou a pedalar.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Homem dos Sonhos (II) - Faça suas preces!


Capítulos anteriores:

Nos tempos medievais, as igrejas eram construídas gigantescas, com as imagens de santos e anjos olhando de forma severa para baixo afim de criar a ideia da enormidade de Deus diante da insignificância do homem.
A pequena igreja do pastor Wanderson não era nem de longe tão opulenta quanto as catedrais góticas dos tempos antigos, apenas uma sala pequena com algumas cadeiras de plástico onde as pessoas se sentavam para ouvi-lo falar buscando alívio para seus martírios diários diante do poder divino.
Mas não havia qualquer alívio para Wanderson naquela noite, enquanto ele tentava em vão debater-se contra as amarras que prendiam seus braços abertos de costas para o altar de onde tantas vezes proferira palavras sobre o poder de Deus e sobre o temor que as pessoas o deviam.
Ele orou, com mais força e convicção do que jamais orou para impressionar seus fiéis em suas pregações, talvez pela primeira vez em sua vida verdadeiramente clamando por uma intervenção divina que o liberta-se daquele suplício.
A figura diante dele não tinha nada de divina, entretanto. Wanderson podia ver, mesmo na penumbra que dominava a pequena igreja os chifres que brotavam da cabeça arredondada enquanto sentia as mãos dele prendendo seus pés juntos em uma crucificação macabra, seu toque parecia com o de pequenas criaturas rastejantes subindo pelas suas pernas causando arrepios igualmente de medo e nojo.
Wanderson tentou mais uma vez mover-se. Um único impulso, um chute bem dado no rosto de seu captor poderia ser o suficiente, mas assim como ocorrera quando ele prendera suas mãos, as pernas não o obedeceram.
Fechou os olhos enquanto o cheiro pungente invadiu suas narinas e o som de líquido sendo derramado se espalhou em seus ouvidos. E orou. Orou com toda a força que possuía. Pediu perdão por todos os seus erros, por todo o dinheiro que tomara de seus fiéis, das mulheres cuja fragilidade ele se aproveitou, de todas as mentiras que contou ao longo dos anos.
Um barulho ríspido o fez abrir os olhos quando o fósforo na mão do seu algoz se acendeu iluminando o rosto da criatura. Sim, criatura, porque não era possível que aquilo fosse humano. Mesmo os chifres sendo na verdade orelhas pontudas e salientes, a pele macilenta como de um cadáver e os olhos de um amarelo pustulento não deixavam dúvidas quanto a isso.
Diante desta visão infernal, Wanderson voltou a orar, mas suas preces transformaram-se em gritos conforme as chamas o devoravam lentamente.

* * *

Wanderson levantou gritando com tanta força que empurrou sua esposa quase derrubando-a da cama.
- Santo Deus, Homem! Que demônio te atacou essa noite?
Ele sentou-se arfando. Por um momento olhou para a mulher ao seu lado sem reconhecê-la. Sentou-se na cama e aos poucos o mundo foi voltando para o seu lugar mas a lembrança do sonho ainda era forte, como se suas mãos ainda ardessem em chamas.
- Você está tremendo. - disse sua esposa as suas costas.
- Foi só um sonho ruim. Nada demais. Deixa isso pra lá.
- Mas você anda tremendo a beça. Tem uns dias que eu estou reparando nisso. Já te disse que você tem que ver um médico, mas você é teimoso a beça.
- Eu já disse pra deixar pra lá! - Wanderson gritou se levantando.
O quarto ficou em absoluto silêncio por alguns minutos. De costas para ela, coçava o bigode branco tentando a todo custo ignorar o quanto a sua mão tremia enquanto fazia isso. Quando finalmente se virou, estava sozinho no quarto. Respirou fundo e entrou no banheiro para começar a se arrumar.
Minutos depois, já de banho tomado e vestido com seu terno marrom entrou na cozinha e encontrou a esposa lavando a louça. Ela serviu um café em sua caneca enquanto ele sentava para o café da manhã. Comeu calado, só falando ao tomar o último gole de café.
- O Souza vai passar aqui mais tarde pra deixar uma encomenda. Uma mochila daquelas. Conta pra ver se tá tudo direitinho e deposita na conta da igreja que como se fosse doação.
Ela concordou com um movimento da cabeça, ele levantou-se, deu um beijo na bochecha dela e saiu. Ambos sabiam que não havia necessidade de desculpas, mesmo ela tendo esquecido que a mulher devia ser submissa ao homem, ele a perdoava.

* * *

Boa parte do dia do pastor Wanderson consistia em visitar as casas dos fiéis para levar-lhes palavras de alento e conforto, além de coletar doações destes para a ampliação de sua sagrada igreja.
Ele se demorava mais em alguns do que em outros, pois cada um tinha suas próprias questões. Dava uma atenção especial as mulheres separadas ou viúvas, além de algumas cujos maridos não provinham com carinho e apoio suficientes para elas. Wanderson tinha muito prazer em atender as necessidades dessas irmãs em cristo.
Após passar o dia nesta árdua atividade, chegou no final da tarde a sua igreja onde Maycom o esperava lendo um jornal popular.
- Boa tarde, pastor.
- Boa tarde, Maycom. Como foi seu dia? - cumprimentou enquanto abria as portas da igreja que não era maior do que uma pequena loja.
Por um momento, Wanderson ficou ali parado observando seu diminuto templo enquanto um arrepio lhe corria pela espinha. Ele mal escutava enquanto Maycom falava sobre dependentes de drogas que ele visitara ao longo do dia e que tinha certeza de que conseguiria salvar em honra e glória do Senhor.
Seu pensamento estava longe, imaginava a igreja maior que pretendia alugar para comportar os fiéis que já não cabiam naquelas três míseras fileiras de cadeiras de plástico, sonhava com o dia em que estaria ao lado de pastores que tinham verdadeiras fortunas, talvez até entrasse para a vida pública. Quem sabe, um dia não estaria ele proferindo o nome de Deus no próprio Congresso Nacional?
O toque de Maycom em seu braço, buscando sua atenção o arrancou de seus devaneios.
- O senhor viu que coisa horrível, pastor?
Wanderson piscou uma ou duas vezes para se situar enquanto pegava o jornal que o outro lhe estendia com uma foto de um homem tão ensanguentado que poderia escorrer pela página.
- O que foi, irmão?
- Esse rapaz que foi retalhado no centro da cidade ontem de noite. - comentou compadecido. - não encontraram nenhuma identificação, e o rosto dele está tão desfigurado. Estão achando que é algum mendigo. Aonde este mundo vai parar?
- A causa disso é a perda dos valores da família, Maycom.
- O senhor acha?
- Tenho certeza! Deve ter se metido com uma daquelas prostitutas ou até os travecos que perambulam o centro. Teve o castigo merecido, certamente.
Quando devolveu o jornal, Maycom tomou sua mão.
- O senhor está tremendo de novo.
- Não é nada! - disse rispidamente enquanto puxava sua mão.
- O senhor deveria ir a um médico ver isso. É tão preocupado em cuidar dos outros mas não se cuida.
- Não é nada, já disse! E mesmo se fosse alguma coisa, tenho fé de que Deus cuidaria de mim melhor do que a medicina dos homens.
- Então permita que eu ao menos faça uma oração sobre o senhor, para lhe trazer alento.
Sentou-se enquanto o jovem colocou a mão em sua cabeça pedindo a Deus por sua saúde e proteção. As palavras foram tão sinceras que até trouxeram lágrimas aos seus olhos e aliviaram os seus temores de que estes tremores poderiam significar que estava perdendo o controle sobre o próprio corpo devido a idade já avançada. Este era o seu maior medo.
- Obrigado, Maycom.
- Não por isso, pastor. O senhor me salvou e ainda poderá salvar muitos outros como eu.
Wanderson ficou observando enquanto o outro se afastava para arrumar as cadeiras para o culto dali algumas horas. Ele fora uma das primeiras ovelhas de sua congregação, quando tinha recém-deixado a cadeia. O jovem era um drogado que vivia nas ruas e olhe para ele agora.
Se um dia teria que prestar contas diante do Criador, sabia que pelo menos uma coisa boa havia feito nesta vida.

* * *

O culto daquela noite foi inspirado. Wanderson falou sobre o fogo do inferno sobre os pecadores que não abraçavam o caminho de Cristo causando um furor entre os seus fiéis. Até citou a reportagem que Maycom lhe mostrara antes para ilustrar a perda dos valores familiares na sociedade decadente.
Ao final, muitos foram cumprimentá-lo e abraçá-lo, concordando com suas palavras e elogiando o fato de ao menos ele ser um homem com coragem para dizer o que ninguém tem coragem de dizer.
Maycom se aproximou dele acompanhado de uma velha senhora, dizendo ser sua avó que ansiava muito em conhecê-lo. Ela abraçou o pastor muito emocionada agradecendo por ter curado seu netinho querido.
Depois Maycom se desculpou por não poder ficar para ajudá-lo a fechar a igreja porque tinha de acompanhar a avó até em casa. Mesmo contrariado, Wanderson sorriu amarelo e permitiu que ele assim o fizesse e garantindo que não haveria problema algum para ele fechar arrumar tudo quando todos saíssem.
Os últimos fiéis ajudaram o pastor a fazer as arrumações, mas ele se despediu alegando que precisava fazer algumas orações sozinho com Deus. Quando se encontrou sozinho pegou a caixa de dízimos e foi conferir a arrecadação da noite. Percebeu que alguns deixaram de contribuir e fez uma nota mental para incluir um alerta quanto a isso na próxima pregação. Como queriam que Deus realizasse os milagres pedidos se eles não contribuíam para a glória de sua igreja?
Enquanto estava entretido em suas contas, pensando em quanto ainda precisaria para conseguir seu sonhado templo, a luz começou a piscar e por fim se apagou. Ele amaldiçoou, imaginando se tratar apenas de uma lâmpada queimada. Usando a luz do celular para se guiar, guardou a caixa e se dirigiu para a saída, quando a porta da igreja se escancarou de repente, mesmo tendo trancado-a quando o último fiel saiu.
Wanderson foi jogado ao chão pela mesma força que arrobara as portas e viu uma figura de pé a sua frente, iluminada apenas pela luz da lua, deixando apenas enxergar sua silhueta, na qual podia se ver o que pareciam dois pequenos chifres saindo das laterais da cabeça.
O pastor estava apavorado diante da figura que o assombrara em seu pesadelo. Sabia que não eram chifres, mas as pontas de suas orelhas salientes. Também sabia que ele o olhava com olhos amarelos da cor do pus de uma ferida a muito infeccionada. E podia sentir o seu sorriso macabro como se ele escorregasse por sua pele.
- Faça suas preces! - O estranho disse em uma voz rasgada.
E sem poder mover seu corpo, foi o que Wanderson fez...


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Labirinto - Parte V

Não esqueça de ler antes: Partes I, II, III e IV


– Ela te entregou? – perguntou Diná, incrédula.

– Ela estava com raiva de mim, pelo que fiz...  – baixou os olhos e tentou controlar a tristeza. Logo o sol cairia do firmamento e teriam de voltar a caminhar. – não a culpo.

– Mas e sua filha? – os olhinhos brilhavam de curiosidade.

– Até onde sei deve estar grande e bonita. Ou pelo menos espero que sim...

Sentiu a delicada mãozinha  acariciando suas costas. Sorriu e abraçou aquela criança. O que ela tinha de tão especial? Não conseguia saber por que, mas se sentia muito bem perto dela. Como se finalmente algo estivesse completo dentro de si. Os primeiros tons de laranja apareceram no céu. Era hora de voltar a fugir. Estavam já a dias nisso. Diná muitas vezes queria desistir, mas Ananda não permitia. Se aquela criança tinha alguma chance de sair viva de lá, iria!

Ainda tinha pesadelos com aquela coisa que vira noites antes... O que quer que fosse aquilo, não era humano, mas ao mesmo tempo não era completamente um monstro. Havia algo a mais. Tentava decifrar aquele olhar que trocaram por um milésimo de segundo. Se não soubesse que ele apenas se movia pela fome até poderia dizer que as tinha salvado do homem mau.

– Você nunca, sequer por um instante, conseguiu chegar perto do caminho certo? – a pequena perguntou. Sua voz era um misto de aborrecimento e dor.

– Não que eu saiba... – riu – mas acho que com você por perto, minha sorte irá mudar.

Caminharam por horas a fio, observando cada esquina, cada ponto de parada. Não sabiam se mais alguém tinha conseguido sobreviver dentro daquele labirinto de espinhos, mas pensando que Ananda e o velho pedófilo estavam ali, era bem possível que mais gente estivesse perdida.

O lugar era repleto de encruzilhadas e becos sem saída. Ananda e Diná faziam o possível para não se verem presas em um. A maior sempre ia à frente, para assegurar-se de que nada estava errado, e por algum tempo conseguiram evitar a fera que as farejava em meio às plantas.

Tempos depois, o que a menor acreditava ser por volta de três semanas, estavam comendo descansadas – já que há muito tempo não tinham noticias de ninguém além delas mesmas – voltaram a ouvir o som do animal se aproximando. Estavam perto do amanhecer, mas ainda não o suficiente para estar em segurança.  Isso poderia ser um problema. Tinham de pensar rápido, e o fizeram. Deixaram para trás carne e tudo o que pudesse atrasá-las, menos água, e correram como loucas na direção oposta aos ganidos, mas era como se não adiantasse. Rapidamente eles foram aumentando em seus ouvidos até tornarem-se insuportáveis. As duas continuavam correndo, mas dessa vez não foram tão atentas e acabaram presas em um beco sem saída. Dessa vez não tinha buraco na cerca viva e nem nada que pudesse ajuda-las a escapar, como antes... E os passos às suas costas anunciavam: Aquilo estava próximo.

Reunindo toda a coragem que precisava, pois não queria morrer sem encarar seu algoz, Ananda virou-se para encarar os olhos do ser do qual faria parte em poucos minutos, e já conseguia imaginar a agonia de ser digerida viva, passando pelos sucos gástricos do estomago dele. Seria assim? Ou ele teria ao menos a misericórdia de matá-la primeiro? Foi quando seus olhos se fixaram na cena que se descortinava ante eles e seu corpo se retesou por completo, não conseguindo esboçar nenhuma outra reação a não ser dizer.

– Santa mãe dos céus... Diná... Não...

A vista estava nublada por lágrimas, mas, apesar da vontade, as pernas não se moviam. A pequena Diná se encontrava de pé, a poucos centímetros da criatura, como se algo lhe chamasse imensamente a atenção. Tinha o bracinho fino estendido na direção dele, na intenção de tocar-lhe com os dedos curtos .

– Você é... – a criança disse antes que seu diminuto corpo fosse atirado ao chão. Mal pôde ouvir os gritos de Ananda que, ainda paralisada, não conseguia se aproximar. Era como se um choque de milhões de volts tivesse passado por seu físico no exato momento que sua pele encontrou a dele, e sentia sua mente flutuar... Agora podia ver tudo claramente... Agora podia ver o que ele era. Ou melhor... Quem.


[Continua]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A outra parte de mim (parte 1)

            
            Dia 15 de Agosto de 2006, foi quando começou. O primeiro incidente; Tatiana Sanchez, idade doze anos.

          Eram dez e quarenta da manhã, o recreio recém tinha terminado. A sala estava em silencio durante a prova de matemática, e como de costume, a maioria dos alunos estava muito nervosa. Tatiana era uma dessas pessoas. Noite passada ela teve um sonho estranho; sonhou que corria selvagem no mato, e era capturada e enjaulada como um animal. Apesar do medo, ela sentiu ao acordar, uma sensação de liberdade e força. Na verdade, vinha tendo esses sonhos a alguns dias, mas nunca comentou pra ninguém.

domingo, 2 de junho de 2013

Olhar de Prata - Parte 2


Já que pretendia sobreviver, iria precisar de uma arma, pra se defender dos monstros. Mas não tinha nenhuma consigo e se tivesse, não teria tanta utilidade. Era um péssimo atirador.
Correu em direção ao velho estábulo, onde por motivos óbvios, cavalo nenhum ficava. Lá encontraria alguma coisa, velhas ferramentas sempre estavam ali. Mas não chegou a atravessar a rua, quando o primeiro lhe encarou. Era grande, talvez pudesse ser chamado de lobo, mas não convinha. Tinha presas bem maiores, pelo preto e olhos também. Olhos que encaravam John, que pensou estar morto neste instante. Mas então, ouviu mais uma vez o apito do trem, mais alto desta vez, talvez ouvisse também o som que fazia sobre os trilhos. A fera, aparentemente, também teve à atenção atraída por isso, abandonou seu alvo, correndo sobre quatro patas até a estação desativada.