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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Mecânico




– Bom dia… Só um minuto que eu já abro.
Eliz correu para abrir o portão da garagem para o mecânico. Ele era alto, corpulento, barba por fazer, e logo de cara fez a jovem se assustar com o olhar Ed poucos amigos. Os braços musculosos saltando pra fora da camiseta, lotados de tatuagens estranhas, como aquelas de ex presidiários, chamavam a atenção rapidamente.
– É aquele ali? – perguntou apontando uma caminhonete
– É... É esse mesmo... – disse meio trêmula.
Tentou entregar-lhe a chave do carro, mas ele pediu apenas que abrisse a porta. A ideia de ter que ficar fechada na garagem, sozinha, com aquele homem era um tanto estranha.  Apertou o botão do controle e ficou encostada na grade da rampa enquanto ele caminhava a passos pesados até o carro. O modo esforçado como abriu o capô e os gemidos que lançava vez ou outra, devido à força de desatarraxar a peça, foram bastante exagerados. Eliz só queria que ele fosse embora para que ela pudesse voltar a seus afazeres.
– Ei moça, poderia me ajudar aqui? Segura a lanterna, por favor...
O pedido a fez tremer de cima a baixo. Era só apoiar a lanterna no carro, pra que tinha que ela segurar? Alguma coisa tinha ali... Mesmo desconfiada foi, pois precisava do carro arrumado e daquele homem fora de suas vistas. Quanto antes, melhor... Se ela ajudasse pelo menos ele não teria desculpas para não terminar logo o serviço.
– Assim? – perguntou meio impaciente.
– É... Exatamente assim. Você está exatamente onde eu queria... – o tom lascivo da voz dele a assustou ainda mais. Não sabia dizer se ele falava com a peça que tentava soltar, com a luz ou com ela mesma. Na duvida era melhor não arriscar. Deu um passo atrás, mantendo o braço esticado, para que a lanterna ficasse no lugar. Mantinha a cara amarrada todo o tempo.
– Sabe, é uma belezinha... Tem jeito de ser bem potente. – voltou seus olhos negros como a noite para Eliz, que já não sabia o que pensar. Tentava se lembrar quem lhe indicara aquele mecânico, mas em sua mente só existiam aqueles olhos a devorando.  Quando deu por si as ferramentas estavam já no chão e ele ia em sua direção. – não vai demorar muito mais...
A jovem não sabia o que fazer. As pernas pareciam gelatina, não a obedeciam e ele continuava se aproximando. Como num estalo seu cérebro religou e conseguiu correr, mas ele corria atrás dela. Pensou em gritar, mas não havia ninguém para ouvi-la, não tinha maneira de chegar até a porta, o controle da garagem parara de funcionar – outra vez... Tinha que reclamar com o sindico se conseguisse escapar dessa – e não havia nenhuma possível saída para ela. O homem continuava a cercando, entre risos e gemidos, uma respiração ofegante pela corrida e a língua passando pelos lábios rachados, levando a eles uma baba gosmenta. Estava encurralada. O sorriso dele era de triunfo enquanto chegava mais e mais próximo. Eliz já começava a implorar e rezar quando percebeu que o extintor de incêndio ainda estava na parede. Ao menos alguma coisa nesse prédio estava dentro dos regulamentos. Sem medo, dó ou piedade rasgou o rosto do homem, que se encontrava a poucos passos de seu corpo, com a chave do carro, fazendo-o cambalear para trás, com dor. Apesar da pequena dificuldade, com algum esforço conseguiu pular a grade atrás de si – rasgando a barra do vestido que usava – e chegar até o objeto vermelho, que significava sua salvação.
– Hey, mocinha, acho que agora acabamos aqui!
O homem estava furioso, o extintor parecia pregado na parede e Eliz simplesmente não conseguia soltá-lo. Estava em desespero, chorando e puxando, quando sentiu aquela mão enorme em seu ombro. Fechou os olhos e dessa vez não se conteve, gritou o mais que sua voz permitiu.
– Dona... Qual o problema? – as pálpebras de Eliz se abriram e suas pupilas dilatadas pelo medo encontraram a imensidão daquelas bolas de gude oculares. Ele parecia bem assustado. Estava parado à sua frente, e ela ainda segurava a lanterna, que em poucos segundos foi ao chão. O que tinha acabado de acontecer? Estava com a respiração ofegante e tratou de se afastar dele, como se fosse um monstro – Olha, se precisar eu chamo um médico pra senhora... Ta tudo bem?
– Ta... Ta sim... – disse sem muita certeza – O que você quer comigo?
– Eu ia avisar que já ta pronto o carro... – ele parecia não entender – E que agora eu tenho que ir embora. Mas daí eu vi a senhora toda pálida e parecendo que tinha visto um fantasma, me assustei. Ta tudo bem mesmo? Quer que eu telefone pra alguém? A senhora vai ficar bem sozinha? Se quiser eu chamo uma ambulância... Eu tenho um primo que é médico, e ele sempre diz que em casos assim tem que chamar uma ambulância... A senhora sabe quanto é 2+2? É que ele diz que é importante manter a pessoa lúcida e fazer perguntas pra saber se o cérebro tá ok...
– Não... Eu to ok... Sério... – passou a mão trêmula pelo rosto.
Estava desconcertada. Aquilo tinha sido tudo fruto da sua imaginação? Acompanhou-o para a porta, e enquanto entregava-lhe o valor do conserto reparou que a tatuagem de seu braço esquerdo, uma das que mais a assustara de inicio por parecer algum tipo de monstro – talvez algum motivo satanista –, era na verdade um desenho de criança, bastante torto e descoordenado, com os dizeres “à minha eterna princesa, que tanto amo, Emily... Saudades eternas” .  

-x-
***Nota da autora: Vivemos em um mundo tão caótico que não raras vezes nos deixamos levar pelas aparências, imaginando situações onde não existem. Deixamos que o mundo nos diga que pessoas X são más, pessoas Y são boas e não paramos pra pensar que isso é bobagem! Às vezes o terror está apenas em nossa mente, servindo de esconderijo para algo muito mais assustador: o preconceito.

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