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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Na estrada da vida

Depois de tudo o que passei, o destino cruel ainda me coloca nas mãos o poder de ser o carrasco ou o anjo salvador deste que arruinou minha vida. Hoje, tenho trabalho, família, dignidade, mas Deus sabe a que preço. Perdoar ou condenar? Peço ajuda, ou o abandono aqui à própria sorte, que bem sei ser a morte certa?


Ainda me lembro bem de tudo o que houve... Foi na melhor época de minha vida. Tinha uma família maravilhosa: uma esposa dedicada e dois filhos. O primeiro, um rapaz de dezenove anos, meu grande companheiro. E a segunda... Ah... minha menininha... Tinha apenas seis anos... Minha criança... Naquele tempo eu chefiava a filial de uma grande multinacional; era rico e digno, residia em uma casa confortável em um bairro de luxo em São Paulo. E no meio de tudo isso eu tentava, juro que tentava, não me corromper. Tratava os meus empregados com respeito e, achava eu, que isso era recíproco. Contudo, estava errado; houve um, apenas um, que me traiu. E era ele, justamente ele, que estava agora, na minha frente, agonizando em profundo desespero... manchado de sangue, como eu estava dez anos atrás, por culpa dele...
Nós éramos amigos. Eu, o gerente da empresa e ele, meu mais "fiel" assistente. Sem que eu soubesse, ele cobiçava meu cobiçava meu cargo, minha esposa, minha vida... Assediava minha mulher, que resistia calada. Um dia, ele me armou uma cilada; minha esposa viajava e eu estava em casa com meus filhos. Ele invadiu minha casa, armado e trazendo dois capangas. Não tivemos como resistir. Tentei, em vão, proteger meus filhos, mas ele os matou sem piedade. Ainda ouço o choro desesperado de minha garotinha, escondida atrás do irmão mais velho. Sinto a dor de ter visto os dois caídos no chão, sem vida, e a impotência que me impediu de deter aquela brutalidade. E ele, o carrasco, tentou me matar me seguida. Discutimos e ele me contou tudo. Disse que agora iria assumir minha vida e ainda seria o herói. Lembro-me de quando apontou a arma. Desesperado, eu me joguei pela janela. Ele pensou que eu tinha morrido, mas estava errado. Eu não morri. Depois que ele foi embora, eu ainda fui ver meus filhos, e manchei minhas mãos de sangue inocente ao erguer seus corpos sem vida. Chorei. E o que mais doeu foi não poder fazer nada. Minha esposa voltou em alguns dias, e nós dois fugimos. Abandonei meu emprego e mudamos de estado. Mas minha vida nunca mais foi a mesma; minha esposa ficou insana e, apesar de ter conseguido um novo emprego e minha dignidade, não sou e nunca serei feliz.
E agora, dez anos depois, volto a estar com aquele que destruiu minha vida e minha felicidade, que matou cruelmente meus filhos, roubou meu emprego e enlouqueceu minha esposa. Vejo em seus olhos a dor, não do arrependimento, mas sim da humilhação de ter sua vida em minhas mãos. O chão está sujo de sangue, o sangue sujo de um cretino que acabou com minha vida e meus sonhos. E não sei o que fazer... Não sei se o socorro ou se o deixo morrer, concretizando minha vingança. Seria a morte um bom fim para ele ou apenas uma vitória para mim? Um sentimento fugaz, que logo seria apagado pela dor do arrependimento... Conseguiria viver com isso? Algum dia me perdoaria pelo que fiz? Poderia me perdoar por abandonar um moribundo, mesmo que ele tenha me causado tantos sofrimentos? E choro... Choro como chorei há dez anos por não saber o que fazer... Vejo em seus olhos que ele preferia morrer a ser salvo por mim... E finalmente tomo uma decisão. Nunca conseguiria viver com essa dor... Nunca poderia tirar a vida de alguém, não tenho esse direito...
Pego o celular com as mãos trêmulas e chamo por ajuda. Passados alguns minutos, vejo os faróis do resgate. Ele será salvo. Viro as costas e vou embora, sem olhar para trás. Meu coração e minha consciência estão limpos. Não me torturarei pela lembrança e continuo o meu caminho, na estrada da vida...


Nota da autora: Esse talvez tenha sido um dos meus primeiros contos de horror. Escrevi quando tinha uns 15 anos, em uma aula de redação no colégio, por isso perdoem-me se não for um texto maduro – com certeza não é. Meu professor elogiou e eu senti aquele gostinho que todo escritor sente quando algum texto seu é apreciado. Essa sensação é viciante.

Um comentário:

  1. Gostei muito... também adoro fazer redações!

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