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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Frequência Infernal


Eu estava entediado aquele dia.
Munido de um pacote de Doritos e muita Coca-Cola, apaguei as luzes do meu quarto e naveguei na internet. Estava sozinho em casa, meus pais saíram para algum jantar idiota com gente chata. Não quis ir, obviamente. Era humilhação demais sair para jantar com os pais e um monte de gente velha numa noite de sábado.
Para não ficar ainda mais deprimido e sozinho, liguei o rádio numa estação qualquer da internet. Estava tocando umas músicas velhas, estilo anos 80, mas deixei mesmo assim. A música me fez lembrar GTA Vice-City. Até cogitei jogar, mas estava a fim de mexer no computador. Então permaneci na internet.
Lá pelas tantas, não havia mais nada o que olhar. Apesar das possibilidades infinitas, em algum momento a internet acaba. O que eu poderia ver em seguida? Não queria ver pornografia, meus pais poderiam chegar a qualquer momento, eles não falaram nada sobre horário.
Abri o Google e permaneci com os dedos alguns centímetros acima do teclado, de olhos fechados, experimentando o ar, aguardando uma inspiração.
Então digitei a palavra “medo”.


Cliquei no primeiro site que apareceu. Era um blog dedicado a fotos, vídeos e experiências aterrorizantes. Fui descendo as postagens e lendo algumas delas. Havia alguns contos de terror interessantes, bem como experiências enviadas por pessoas, a maioria histórias absurdas.
Estava lendo sobre a história de uma menininha no banheiro quando o rádio parou de tocar. Praguejei alto, a conexão da minha casa era uma porcaria. Mudei de janela, pausei a estação, cliquei novamente no play, voltei ao blog de terror.
Não se passaram nem dez segundos e a música parou novamente. Só que, dessa vez, o som ficou travado, como se o locutor estivesse se repetindo.
Cinco cinco cinco cinco cinco cinco cinco cinco
Xingando, fiz a mesma operação de pausar e ligar a rádio novamente. Maldita conexão de merda.
Alguns segundos depois, o mesmo problema.
Quatro quatro quatro quatro quatro quatro quatro
Bufei. Aquilo já estava ficando ridículo. Desliguei e liguei a estação novamente. Reclamei no Twitter da minha internet de araque. Voltei a ler.
Três três três três três três três
Mas que inferno. E agora a porcaria do computador também estava travado. Não conseguia mexer o mouse. E o rádio continuava a contar três três três três. Tentei desligar o computador.
Foi aí que as coisas começaram a ficar estranhas.
O computador não desligou.
Desliguei direto no estabilizador. Arranquei a tomada da parede. Nada. Nada a não ser o som ininterrupto da estação.
Só que ele mudou.
Dois dois dois dois dois dois dois
Que porra era aquela? Uma maldita contagem regressiva? Tentei mexer novamente no mouse. Uma tensão súbita percorreu meu corpo. A luz do monitor brilhava agourentamente. A tela ainda estava parada no site do medo. Era uma tela escura, com os textos escritos em letras brancas. Havia detalhes em vermelho no blog, imitando sangue.
A tela tremeu, como televisão antiga quando ficava fora do ar. As letras brancas se embaralharam na tela. A contagem na rádio continuava.
Um um um um um um um
Senti a incrível necessidade de sair dali. Algo forte pressionava minha garganta. Estava difícil respirar. Mesmo querendo correr, permaneci sentado na cadeira, as pernas congeladas. A curiosidade era maior que o medo.
Um um um um um um um
O rádio silenciou.
Na tela apareceram lentamente as palavras, como se alguém as digitasse:

Corra
Sofra
Morra

As palavras se embaralharam. Rodopiaram vertiginosamente na tela. Paralisado, fiquei observando-as enquanto formavam uma figura.
Um sorriso.
O rádio sintonizou algo.
Uma risada.
Gelada e cortante como faca.
Senti um calafrio por todo o corpo. Meu peito se comprimiu. De repente não conseguia mais enxergar, nem ouvir, nem respirar. Sufocava. Meu peito doía. Comprimi as mãos, mas de nada adiantava. Só ouvia aquela risada e aquela voz dentro da minha cabeça.

Morra morra morra morra morra morra morra 


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