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segunda-feira, 11 de março de 2013

A Vingança de Kali


"Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte." - Sigmund Freud

Quanto o telefone tocou quis ignorar, sem sucesso. Uma voz sussurrou na alma, o coração apertou, acelerando num compasso sem ritmo, pulsações de dor que cruzaram por todo o corpo. Minha mão guiada por Kali, deusa da morte, tomou o aparelho deixando que seu dedo azul apertasse o botão verde. Mesmo lendo o nome Emanuel Nespusse na tela do celular, eu atendi, disse alô e aguardei uma resposta.


– Bom dia, delegado Hedomon. - Realmente deveria estar maluco ou realmente possuído. Receber uma ligação do delegado que me substituiu numa manhã de domingo era certeza de problema, Emanuel era meu aprendiz, ainda um moleque, e essa formalidade que ele nunca teve me irritou. –  Tudo bem com você?


– Porra, Emanuel, não precisa falar comigo assim, nem quando trabalhávamos juntos você rasgava essa seda. O que você manda?



– Calma aí chefe, só estou querendo saber como você está. – Melhor impossível  – respondi tentando não transparecer nervosismo. É só uma conversa amigável, pensei e continuei a falar: – Vivendo os melhores dias da minha vida, sem pressão, acordo quando eu quero e se quero, vivo minha vidinha.


– Nada como uma boa aposentadoria, vida parada, sem nada para fazer... Um dia eu chego lá.

Falta muito, Emanuel –  retruquei –, larga de ser preguiçoso rapaz. Nem casou e já quer se aposentar. – Só faltam uns vinte ou trinta anos, e espero chegar lá solteiro mesmo, mulher só dá dor de cabeça – típico do Emanuel , só faltou o seu chavão. – Nada pessoal, mas mulher só serve pra comer – pronto, não faltava mais. – Já aproveitou para viajar com a esposa?

– Como? Com esse salário de merda? Só dá para se alimentar e pagar o aluguel. Mesmo assim, só de ter a certeza que amanhã posso acordar sem nada ou ninguém me perseguindo ou querendo me matar já é o suficiente para me fazer feliz. E aí, como vão as coisas em Terom? – eu fiz a pergunta maldita! Era a deusa da morte me controlando, só pode! Qual seria outra razão para me ligar, do que um problema gigantesco para jogar em minhas mãos? 

– Porra cara, a coisa está feia aqui na cidade. – Eu sabia – Aqui no batalhão todo mundo tá se cagando de medo, ficou sabendo da última? Sabe aquele cara de nome estranho que vivia no escritório? – Aquele nerd que vivia de óculos e sempre estava no computador? Puta, como é o nome dele mesmo? – O Rainier! Pois é, o camarada foi assassinado. 

– Puta que pariu, Emanuel. Como assim o cara morreu? O que aconteceu com ele? – Pois é. Sabe como ele era: meio lesado, ficava quieto no canto dele, tinha pavor de muita gente. Na sexta ele falou que ia acampar junto com a esposa, passar o carnaval no meio do mato pra fugir das festas aqui da cidade e assim foi.


– O camarada esqueceu de trabalhar na segunda, não apareceu no trabalho nem na terça nem na quarta e quando foi na quinta-feira o pessoal estava meio desconfiado porque o cara não tinha aparecido, nem ele nem a Laís, mulher dele. O pessoal ficou meio bolado sobre o que tinha acontecido e tentou falar com o cara de tudo quanto é jeito, mas ninguém conseguiu. O Franz perdeu as contas de quantas vezes tentou ligar, mas acabou lembrando que o cara tinha ido acampar. 


Conhece o Bosque Rogen? Não? Fica próximo à represa Domerat, uns seis quilômetros pra frente do posto Boa-Viagem na BR 66. Lembrou? Então, como ele sempre acampava no mesmo lugar, juntou eu, o Franz, e a Karen e fomos lá para ver se achávamos algum vestígio deles. Não deu outra! Em menos de meia hora já vimos a barraca dele de longe, bem como as manchas vermelhas. Uma delas pintava uma árvore por completo.


– A cena foi terrível e mexeu com todo mundo. A cara que todos fizemos quando chegamos lá deixava claro que o terror e atrocidades que vimos era obra de um monstro. Nunca ninguém viu algo como aquilo aqui em Terom, nem mesmo o famoso delegado Hedomon. Ou será que já?

– Já vi coisas que você nem imagina, garoto – respondi com orgulho de ouvir "delegado Hedomon", mas pesado por lembrar de minhas medonhas histórias. – Você nem imagina – repeti passando a mão na nuca. Senti em meus dedos a cicatriz, em formato de cruz que começava nuca e estendia-se pelas costas inteiras, a marca de Kali sobre meu corpo.

Duvido que algo assim, senhor: - Emanuel cortou, voltando minha atenção ao mundo real. - O primeiro corpo que vimos foi o da moça, principalmente porque era dela aquela imensa quantidade de sangue que banhava a árvore, bem como pedaços rosados de seu cérebro, com um estouro no pedaço de trás. Ela estava pregada na árvore, seus pés e mãos. Não era uma coisa romântica como Jesus, não. Cada braço e perna estava pendurado em galhos separados com pregos enormes. Pelos outros furos que havia em seu corpo o atirador estava praticando tiro ao alvo até acertar um furo na sua nuca, que explodiu seus miolos por todo canto. Já o Rainier, estava com todo o seu abdômen arrancado. As marcas em toda a sua barriga era similar à um lobo feroz que arrancou com garras e dentes todas as suas tripas. O fedor que saía dele não chegava perto do fedor de um peixe abandonado na pia durante um fim de semana inteiro. Quando juntou ao odor de vomito de uma das meninas e do meu, eu concluí que nem mesmo o inferno seria mais desagradável. Ele estava enforcado em suas próprias tripas. Dá para acreditar?

– Puta que o pariu, tem que tomar no cu o filho da puta que faz uma coisa dessas!

– Mas isso não é tudo. O Franz separou a gente em duas equipes para analisarmos o lugar, sendo que eu e a Karen cuidaríamos do corpo da Lais enquanto ele veria o do Rainier. Você não vai acreditar no que encontramos: Umas três balas de prata e uma mecha de cabelo vermelho como o fogo!

– Porra Emanuel, parou com a palhaçada. Você está de sacanagem, como algo desse tipo ia acontecer no Brasil e não sair na mídia? Vai tomar no cu seu desgraçado, não tenho tempo pra palhaçada não, muleque! Você está me querendo dizer que um lobisomem atacou os dois? 

– É sério, delegado. A parada aqui está um terror. Se você não acredita pode ligar lá na DP. A Karen está lá e pode te confirmar tudo, mas antes deixa eu terminar, pois a loucura só começou. O Franz saiu para analisar as pegadas, que foi a coisa mais estranha de toda essa loucura. As pegadas com sangue, em vez de sair da cena do crime, chegavam. – Como assim, cara? – Porra, não vou saber explicar. As pegadas chegavam à cena do crime com sangue e saiam limpas, como se... –  ele tentou buscar as palavras, balbuciou algo, pesquisou na mente, mas a palavra correta nunca foi encontrada. – O assassino estava andando ao contrário. Parecia que tinha as pernas do avesso. Você não acreditará mas parecia um ataque da Curupira

– Porra cara, agora já foi longe demais. Eu não vou...

– Ok, sei que a história é maluca – apressou, pois sabia que eu iria desligar o telefone –,  pode ligar pra Karen depois, mas pelo menos me ouve, porque eu não te liguei à toa. Sei que você agora está vivendo a sua vida e está aposentado, mas acho que você deve esconder tua mulher e vir para cá.

– Você vai ter que me dar um bom motivo para isso, Emanuel. Um motivo excepcional, pois já larguei essa vida.

– Presta atenção, tanto a Lais quanto o Rainier tinham marcas no corpo. Na nuca de cada um havia uma letra queimada como se fossem bois, com aquele queimado feito à ferro – um frio catapultou meu coração à garganta, meus ossos tremeram e eu senti novamente o caso Kali invadindo a minha vida. Voltei a mão na nuca lembrando como fui marcado pela deusa da morte! – Nela estava gravado a letra "E", nele "D".

– Levamos os corpos para o Edilton ver, na autópsia ficou claro que ela duas horas antes do Rainier. Ela não foi violentada, as marcas que haviam em seu corpo era apenas de violência gratuita. Acreditamos que ambos foram amarrados e amordaçados. O agressor ou agressora, não sabemos ainda, utilizou a fogueira que o casal havia feito para esquentar o metal e marcou a nuca da vitima. Provavelmente ela desmaiou com a dor e foi crucificada enquanto o homem assistia. Os passos nos dão impressão dele ter feito tudo ao contrário então está confuso entender o que ele fez. Parece que ele olhava para o homem enquanto atirava na mulher e olhava para a mulher enquanto atacava e encarava o homem. Ou isso ou os pés estão contrários, pois seus pés chegam sangrando ao local e saem limpos.


– Enfim, após isto ele fez a marca no Rainier e com algum objeto de osso, como dentes ou garras, fez o corte que arrancou o abdomem como se fosse uma tampa. Arrancou suas tripas com ele ainda vivo. O enforcamento não foi a causa da morte, foi realizado apenas para deixar um recado. Se minha intuição estiver certa eis o que imagino. A primeira vítima marcada com "E", a segunda com "D". Posso estar enganado, mas acredito que essa era para você Ed...

Kali, a deusa da morte condenava a minha alma ao inferno novamente. Mas não era possível eu matei esse desgraçado!


– Querido, está tudo bem? – perguntou aflita, a minha esposa, reagindo à minha expressão de horror e minha mudez repentina ao telefone. Eu fiquei tão frio quanto o coração do diabo sentindo cada osso meu trincar e cada músculo congelar. Tremia como se estivesse no Ártico, mas meu coração e mente queimavam como um vulcão. 


– Linda, prepare as malas, urgente! – respondi depois de um bom tempo apenas enfrentando seus olhos preocupados. – Só um momento Emanuel... 

– Como assim, amor, o que foi qu... 

– Vai logo mulher, arruma as malas. A gente tem que sair daqui o mais rápido possível... – voltei ao telefone: – Emanuel, caralho seu filho da puta, eu te odeio.

– Eu sei – respondeu. 

– Chego aí em Terom amanhã cedo. Tem mais algo para me contar? 

– Na verdade – uma longa pausa tomou conta do ambiente –,  tenho. Com a voz ligeiramente depressiva continuou: – O Franz também morreu.

CONTINUA...


*****
É isso aí pessoal, depois de muita espera chegou o nosso conto em parceria. À partir de hoje todos os escritores do Um Ano de Medo escreverá uma parte desta obra, seguindo o seguinte calendário:

Segunda-feira 11/03/2013: Rainier Morilla Terça-feira 19/03/2013: Franz Lima Quarta-feira 27/03/2013: Edilton Nunes Quinta-feira 04/04/2013: Emanuel Cantanhêde Sexta-feira 12/04/2013: Karen Alvares Sábado 20/04/2013: Autor convidado (Provavelmente a Tatiana \o\lol/o/) Domingo 28/04/2013: Ednelson Jr

Sinto-me honrado de iniciar esta história e estou ansioso para ver como ela se encerrará e que caminho cada autor tomará para esta história. Há braços! Rainier.

*****
Estas são algumas ilustrações do novo colaborador Daniel MM:
Edilton dá as primeiras notícias

Delegado Hedomon

Hedomon já aposentado

O Delegado manda sua mulher preparar as malas: medo?
 

27 comentários:

  1. Nhaaaaaaaaaay, ansiosa pra saber o que poderei fazer *.*

    Muito bom inicio!!!

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    1. Obrigado Tati, eu realmente estou muito ansioso pela tua parte no texto. Quero ver vc aparecendo de forma impactante iykwim

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  2. It's alive.... Finally. Grande início, Rainier. A responsa da continuação está comigo. Vamos escrever...

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    1. Caramba, vc não sabe o quanto estou ansioso pela continuação! Sério mesmo... Quero ver aonde vocês levarão este universo criado com muita dedicação, muito estudo de como deixar uma história concisa. cheia de referências para que vocês tenham muito conteúdo para desenvolver. Há flashbacks, sideplots e um enredo muito rico para ser construído, aproveitem.

      Espero ter sido útil em construir essa estrada em que vocês, escritores fantásticos, farão a jornada. Realmente espero que se divirtam neste projeto!

      E sim, foi um prazer matá-lo neste texto. hasuahusahaushsuasauh

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  3. Genteeeeeee que foda!!! Muito bom!!! Adorei a ideia e to ansiosa para continuar e ao mesmo tempo, com muito medo. O_o
    Curti minha participação e ainda estou viva! Uhuuuuul!

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    1. Karem, me sinto honrado em poder servi-los com esta história. Estou extremamente feliz que tenham gostado. Também estou muito empolgado com o que farão na história. E curioso, e nervoso, e preocupado, e tudo mais...

      Mas se fosse você não comemorava estar viva... XD

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  4. Uma coisa veio à minha mente... Será muito bom detalhar a última morte... de hoje hahahahahahahahahahahahahaha

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    1. "Memórias póstumas de Franz Lima" - Escolha seu médium preferido e da-lhe psicografia! Husauhsahuashuuhsuhsahusa

      Boa sorte com Kali...
      http://www.viacapella.com.br/portal/kali.htm

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  5. Poxa fiquei curiosa para saber o final....Muito bom!

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    1. Todos nós! Acredito que cada escritor está maluco para transformar essa história de uma forma diferente. XD

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  6. "Curti minha participação e eu ainda estou viva" - Alvares, Karen

    AINDA MUAHUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUAHUAHUAHUAHUA cof cof cof - risadas maléficas são péssimas pra quem tem problemas respiratórios... =p

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    1. Hhsuahusahuashusauhsahuahusauhsauhhusua...
      Let the games begin!

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  7. Rainier, meus parabéns e aplausos por um início de tirar o fôlego! O vocabulário achei maravilhoso, pois numa situação de tensão e medo, eu falaria mais ou menos assim mesmo. Sinto-me honrado em ser o delegado. Será que chegarei vivo até a parte final e terei de bater o martelo para mim mesmo? Descubram dia 28 de Abril! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    1. Pois é... O que será que vai acontecer até o dia 28? Estou mais do que ansioso. Franz, Go Escrever NOW!!! HSAsahuashuhusauhasuh
      PQP podia ser hj o lançamento da parte dele...

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  8. Poxa vida meninos(a) vou morrer de urticaria até o ultimo capitulo.....dia 28 esta muito longe? rs. abraço.

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    1. Dia 28 do mês que vêm!!! Pertim, pertim...

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  9. Po, muito foda! Suspense, mistérios e mais mistérios. E mortes excruciantes! Sim, sim, tudo muito bom.
    Adorei a ideia e adoro a mitologia por detrás.
    E bem fluido todo o diálogo!
    Parabéns!

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    1. Que bom, tentei trabalhar muito o dialogo, pois não é meu forte. Acredito que você já tenha até percebido que evito muito os diálogos em meus textos, visto que você sempre comenta o q escrevo. XD

      Se você disse que está bom eu acredito, a mitologia deu um toque especial mesmo, e foi completamente por acaso que decidi colocar, nas revisões que Kali ganhou um toque a mais (Graças ao Juliano), já o conjunto de outras mitologias foi a proposta inicial muito criticada pelo Álisson, mas que graças aos puxões de orelha dele eu pude trabalhar muito melhor!

      Se mereço os parabéns Juliano Rossin e Alisson Zimmerman merecem o crédito!

      Obrigado por sempre aparecer por aqui e na Roda de Escritores. Vida longa e próspera! XD

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  10. Eu acho que eu tinha deixado um comentário aqui antes... bom, esperando pra ver as continuações.

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    1. Aproveito o teu comentário para deixar meu agradecimento nas revisões, o texto não seria tão bom se não fosse a tua mão por trás (UI!) hsahashusahusauhsauhusa

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  11. O Rainier nem me conhece pessoalmente e sabe que todo mundo me odeia... O que séra que eu fiz? :P

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    1. É Karma... Hhusauhsahushaushuahasusahusausa
      Ainda bem que eu me matei no inicio, ninguém pode falar nada de mim! XD

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  12. me senti lendo algo do Poe, ou seja, gostei muito.

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    1. Ele foi uma grande inspiração! DANTESCA inspiração!

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    2. Gosto muito do Poe, e do ilustrador Gustave Doré, que ilustrou muitas obras de Poe, eu pretendo um dia conseguir desenhar como esse.

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    3. Tenho um livro com diversas obras do Poe e com as ilustrações desse camarada. Ambos são fantásticos. Tanto a obra escrita como a obra ilustrada fazem este livro ser uma peça preciosa na minha biblioteca.

      Estou lendo muito poe para escrever aqui. Estou absorvendo muito da narrativa dele que é impecável! Só me falta um ilustrador daqueles, pqp é demais...

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    4. hahaha eu não ilustro como ele, mas to tentando. Alias acho que esse post vai ganhar uns desenhos meus =)

      certa vez vi em algum lugar não lembro onde que falaram mais ou menos assim.

      "sabe aqueles artistas que tem a visão das coisas obscuras da vida? cara como Dore, Poe..."

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